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“Um fuzileiro não podia chamar pela mãe”

Como enfermeiro, acompanhei os grupos de combate em todas as operações que humana e fisicamente me foi possível. Ia além do curso
6 de Novembro de 2011 às 00:00
Leitão Rodrigues aguarda que seja restabelecida a circulação na estrada, depois de se ter virado uma das viaturas, para regressarem de uma missão
Leitão Rodrigues aguarda que seja restabelecida a circulação na estrada, depois de se ter virado uma das viaturas, para regressarem de uma missão FOTO: Direitos reservados

No convés do navio de guerra – de apoio – S. Gabriel estava o destacamento de fuzileiros especiais n.º 1 a despedir-se dos familiares no cais. E lá estava também a minha mulher com a nossa filha, que nesse mesmo dia fazia cinco meses. Era 15 de Outubro de 1969, o ano em que eu tinha entrado – em Março – para os Fuzileiros. E nesse mesmo cais da despedida para Angola, os marinheiros comentavam, ironicamente, enquanto eu chorava: "O destacamento vai bem servido com este enfermeiro".

Ao dar-me como voluntário para a Marinha de Guerra, depois de terminar o curso geral de enfermagem, eu já sabia que não ia para a Marinha Mercante. Mas ser fuzileiro, isso estava fora dos meus horizontes. Eu só sabia que tinha o dever de obedecer e que a minha missão em guerra era tratar e salvar.

Como enfermeiro fuzileiro, acompanhei os grupos de combate em todas as operações que humana e fisicamente me foi possível. No quartel, cuidava e tratava dos fuzileiros que ficavam e também da população.

Como a presença do médico era pontual naquele cenário de guerra, os enfermeiros tinham que ir além do que o seu curso lhes ensinara. Desde partos, às mais variadas patologias de crianças e adultos, passando pelo tratamento e extracção de dentes. Até porcos castrávamos.

O PERIGO DAS MINAS

A operação ‘Só cinco dois’, no leste de Angola, marcou toda a minha comissão, por duas razões totalmente opostas – como diria o comandante do destacamento. Primeiro, porque foi quando aconteceu o acidente mais grave; e segundo, porque salvei uma vida.

Eram cerca das 17h00 do dia 21 de Junho de 1970 quando o marinheiro Monteiro pisou uma mina que lhe cortou uma perna e fracturou a outra. Teve azar, porque por aquele trilho já muitos outros tinham passado, inclusive eu.

Tomaram-se medidas de segurança imediatamente. E eu, prontamente, o socorri – até porque estava a escassos metros dele. Quando cheguei e enquanto procurava garrotes – e o meu cinto das calças era já um dos muitos garrotes que levávamos – o sangue jorrava. Contra todas as técnicas de assepsia e doses terapêuticas, o que pretendi foi evitar o estado de choque. Consegui estimulando-o com palavras de elevação das qualidades de um fuzileiro. E também com outras palavras mais agressivas. Um fuzileiro não podia chorar nem chamar pela mãe só porque acabou de perder uma perna.

As seringas e agulhas para administração de injectáveis já tinham sido todas utilizadas, pelo que tive de limpá-las ao meu camuflado. Era a solução, porquanto como tudo era feito às escuras , só com a luz do luar.

O pedido de socorro, feito durante toda a noite, esgotando a carga da bateria do rádio, obrigou uma secção inteira ir ao encontro da outra – correndo riscos evidentes. E pelas 10h00 do dia seguinte, lá chegou o helicóptero para levar o Monteiro.

Em Maio de 2010, num reencontro dos fuzileiros do destacamento n.º 1, lá estive com o Monteiro, que tem uma família feliz. E eu posso dizer que, mesmo agora chorando ao recordar este episódio, valeu a pena.

Durante a minha comissão aconteceram outras situações difíceis. Profissionalmente ganhei muito. Mas também ganhei traumas.

PERFIL

Nome: João Leitão Rodrigues

Comissão: Angola, 1969/71

Força: Destacamento Fuzileiros Especiais n.º 1

Actualidade: Enfermeiro reformado, aos 66 anos é gerente de um lar de 3ª idade. Vive em Canas de Santa Maria, Tondela

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