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Um paradoxo doloroso

‘O Nascimento de uma Nação’ é uma reflexão crítica sobre a grande mancha da nação americana: a escravidão.
João Pereira Coutinho 12 de Janeiro de 2020 às 09:00
‘O Nascimento de uma Nação’
‘O Nascimento de uma Nação’ FOTO: Direitos Reservados

É um paradoxo doloroso: como explicar que um país que fez da liberdade a sua grande bandeira ostente no currículo a mancha da escravidão? E como explicar que, já depois da Guerra Civil, a servidão tenha continuado, por outros meios, até meados do século XX?

São duas perguntas que assaltam o espectador quando confrontado com ‘O Nascimento de uma Nação’. O título não é inocente: antes deste filme de Nate Parker, existia uma outra obra com a mesma titulatura. Falo, como é óbvio, do clássico de D.W. Griffith onde o Ku Klux Klan era apresentado em tom heróico.

O heroísmo, aqui, é reservado para os negros, não para os seus algozes. Sobretudo para Nat Turner, figura histórica que liderou uma das mais impressionantes rebeliões de escravos no século XIX americano.

O filme relata a história de Nat, um rapaz observador e inteligente, que testemunha desde cedo a violência daquele iníquo sistema. Mas o momento transformador da sua infância acontece por via da leitura: aprendendo a ler por sua conta e risco, Nat será posteriormente educado pela dona da casa, que vê no rapaz capacidades extraordinárias.

Com os anos, Nat não é apenas mais um escravo nas colheitas do algodão; é também um pregador da Bíblia, convidado a espalhar a palavra pelas plantações da Virgínia. A esperança dos fazendeiros é que Nat use os seus conhecimentos bíblicos para incutir nos escravos insubmissos as virtudes da resignação.

Sem sucesso. Confrontado com o sofrimento e a barbárie dos outros, mas também experimentando esse sofrimento e essa barbárie dentro de portas, Nat chamará a si a missão redentora de libertar o seu povo escravizado. As sequências dessa luta, pelo seu desespero e pulsão suicidária, são o melhor do filme.

E regresso ao início: a escravidão é a grande mancha da nação americana? Sem dúvida. Mas, como lembrava o filósofo Pascal Bruckner, o que distingue o Ocidente de outras civilizações não é a existência de escravos.

É a capacidade de refletir criticamente sobre o seu lado mais monstruoso.

Enquanto for assim, nem tudo está perdido.

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