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“Uma mina matou o cabo que seguia à minha frente”

Fui para a guerra com 21 anos, já casado, mas não sabia ao que ia. Estive no fim do Mundo e voltei de lá em 1968.
Fernanda Cachão 16 de Dezembro de 2018 às 11:30
“Uma mina matou o cabo que seguia à minha frente”
“Uma mina matou o cabo que seguia à minha frente”
A 30 de abril de 1966, pelo meio-dia, saí de Lisboa no Pátria. Tinha 21 anos e ia para a guerra em Moçambique. Morava em Oeiras, embora tivesse nascido em Lisboa, e já era casado. Nem eu nem provavelmente os outros sabíamos muito bem ao que íamos. Lembro que logo à chegada e para nossa confusão, enquanto uns nos diziam que o nosso destino era o Ile, ouvíamos doutros que era o Errego, afinal dois nomes para a mesma terra.

Ali estivemos dez meses, antes de seguirmos para o Niassa, em Nova Coimbra, onde conhecemos finalmente o que era a guerra, as minas - começámos a fazer operações. Na primeira, 17 feridos e um morto.

Íamos com um guia indígena, a quem tinha sido dado o vinho que bebeu e seis quilómetros depois parou numa poça para se abastecer de água. A poça estava armadilhada. Dezassete ficaram feridos, alguns deles em estado grave.
Quando íamos à procura de uma clareira para assim recebermos socorro dos helicópteros de transporte de feridos, o Cabo Leão, que seguia à minha frente, pisou uma mina. Morreu já no Hospital de Vila Cabral.

A vida continuou até que fomos de Nova Coimbra para o famigerado destacamento de Niamdica, em finais de 1967, princípio de 1968. Era o fim do Mundo. Trinta e quatro homens isolados sem apoio nenhum, as rendições eram a pé.

Saíamos de Nova Coimbra, por volta das cinco das manhã e chegávamos pelas cinco da tarde, de três em três meses.
Digo que era ali o fim do Mundo porque simplesmente não havia nada, o socorro só vinha a pé ou então se antes das 17 horas, de dia, pela aviação. Quando caia a noite estávamos absolutamente sozinhos.

O Fernandes
No dia 25 de fevereiro de 1968, o meu grupo de combate ia ser substituído por outro e nós com o apoio do alferes Quintas, que era de Macau, resolvemos receber os ‘checas’ (alcunha dos novatos) trocando os postos. Os oficiais passaram a soldados e os soldados a oficiais e a fazer de oficial fui receber os que chegavam.

Andávamos a ludibriar aquele pessoal todo, a mostrar o aquartelamento - quatro barracas - dizendo-lhes que era daquele lado que vinham os ataques, quando até à data na realidade nunca tínhamos tido nenhum, quando cinco minutos depois das cinco da tarde, uma granada atingiu o Fernandes.

Pedimos evacuação e no dia seguinte apareceu um helicóptero. Comunicámos que o ferido estava morto, ao que nos respondem que assim não tinham autorização para o transportar e que portanto teríamos de enterrar ali, no meio do mato, o Fernandes.

O Quintas, que era o comandante do grupo de combate, respondeu que se não o levavam de helicóptero, íamos nós levá-lo às costas 40 quilómetros de Miabica para Nova Coimbra. O oficial do ‘héli’ acabou por dizer que levava o Fernandes, desde que declarássemos que ele entrava a bordo vivo.

Regressámos todos no dia seguinte em coluna apeada a Nova Coimbra e dali fomos enviados para Molocue, que era uma zona mais sossegada. Quinze dias depois fomos mandados outra vez para a guerra, agora em Nova Viseu.
Ali tivemos três meses a fazer o mata-bicho que é como chamávamos ao tempo que ia além dos 24 meses normais a cada comissão. Seguimos depois para Molocue, e finalmente Portugal.

Voltámos no Vera Cruz. Chegámos a Lisboa a 4 de setembro de 1968, também por volta do meio- -dia. Tinha à minha espera aquela que é ainda hoje a minha mulher, 52 anos depois.

Por causa da guerra em Moçambique cheguei a andar num psicólogo. Andava a sonhar que não queria voltar, pois que mandassem outro.
Niassa Moçambique Nova Coimbra Vera Cruz guerra colonial
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