Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
3

Umberto Eco: ‘Superstar’ dos sete instrumentos

Guru dos tempos modernos, malabarista da verdade e da mentira.
João Pedro Ferreira 19 de Abril de 2020 às 11:00
Umberto Eco
Umberto Eco FOTO: Direitos Reservados

Umberto Eco (1932-2016) já era um guru nos meios intelectuais, graças aos seus ensaios provocadores nas áreas da filosofia e da crítica literária, quando uma incursão no romance transformou o pacato professor italiano da Universidade de Bolonha numa estrela internacional. ‘O Nome da Rosa’ (os romances estão editados pela Gradiva), publicado em 1980, foi um fenómeno de crítica e de público: vendeu 50 milhões de exemplares em todo o Mundo. Uma história policial ambientada num convento medieval, com muitas referências culturais apimentadas por uns pozinhos de erotismo transgressor, tornou-se um livro de culto. Reincidiu com ‘O Pêndulo de Foucault’, uma paródia muito séria às teorias da conspiração – quem o leu ficou vacinado por antecipação contra ‘O Código da Vinci’. Uma parte da história é passada no Convento de Cristo, em Tomar. Eco brincava com a mentira, como em ‘O Cemitério de Praga’, um livro sobre teorias da conspiração e ‘fake news’. O seu último romance, ‘O Número Zero’, é sobre um jornal cuja principal função é… não sair.

Especialista em semiótica, Eco criou o conceito de intertextualidade, que aplicou tanto nos ensaios como na ficção: múltiplas referências cruzadas a outras obras literárias, à arte, à história, à política, sem esquecer a música ou a banda desenhada. Observador atento do mundo da comunicação, fez previsões acertadas sobre o papel das redes sociais na sociedade atual.

Do livro ‘O Nome da Rosa’, trad. Maria Celeste Pinto, ed. Difel
"(...) Então a criatura aproximou-se de mim ainda mais (…). E enquanto não sabia se fugir dela ou aproximar-me ainda mais, enquanto a minha cabeça pulsava como se as trombetas de Josué estivessem para fazer derrubar as muralhas de Jericó, e ao mesmo tempo desejava e receava tocar-lhe, ela teve um sorriso de grande alegria, emitiu um gemido submisso de cabra enternecida, e desfez os laços que lhe apertavam o vestido sobre o peito, e fez deslizar o vestido do corpo como uma túnica, e ficou diante de mim como Eva devia ter aparecido a Adão no jardim do Éden. (…) fiquei entre os seus braços, e caímos juntos sobre o pavimento nu da cozinha e, não sei se por minha iniciativa ou por artes dela, achei-me livre do meu saio de noviço, e não tivemos vergonha dos nossos corpos (…).

E ela beijou-me com os beijos da sua boca, e os seus amores foram mais deliciosos que o vinho e ao odor eram deliciosos os seus perfumes, e era belo o seu pescoço entre as pérolas e as suas faces entre os brincos, como és bela, minha amada, como és bela, os teus olhos são pombas (dizia), e deixa-me ver a tua face, deixa-me sentir a tua voz, que a tua voz é harmoniosa e a tua face encantadora, fiquei louco de amor (…), fiquei louco com um só olhar teu, com uma só gema do teu pescoço, favo que goteja são os teus lábios, mel e leite sob a tua língua, o perfume da tua respiração é como o dos pomos, os teus seios em cachos, os teus seios como cachos de uva, o teu palato um vinho delicioso que vai direito ao meu amor e flui sobre os lábios e sobre os dentes. (…) nada podia ser mais justo, mais delicioso, mais santo que aquilo que estava sentindo e cuja doçura crescia momento a momento. (...) como o ar inundado pela luz do Sol é transformado no máximo esplendor e na mesma claridade, a ponto de já não parecer iluminado mas de ser ele mesmo luz, assim eu me sentia morrer de terna liquefação (…).

Enquanto, quase esvaído, caía sobre o corpo a que me tinha unido, compreendi, num último sopro de vitalidade, que a chama consiste numa esplêndida claridade, num inato vigor e num ígneo ardor, mas a esplêndida claridade possui-a para reluzir e o ígneo ardor a fim de queimar. Depois compreendi o abismo, e os abismos ulteriores que ele invocava. (…)" 

Do livro ‘A Misteriosa Chama da Rainha Loana’, trad. Simonetta Neto, ed. Gradiva
"(...) Numa página, bastante pequena mas imensamente evidente, uma foto de Josephine Baker, de mamas ao léu.  Fito aqueles olhos pintados para não ver os seios, depois o olhar desloca-se, são (creio eu) os primeiros seios da minha vida, pois não o eram aquelas coisas amplas e flácidas das calmucas ‘à poil’. Uma vaga de mel percorre-me as veias, sinto um gosto azedo no fundo da garganta, uma pressão na testa, um delíquio nas virilhas. Levanto-me assustado e algo húmido, perguntando-me que terrível doença me terá acometido, deliciado com aquela liquefação num caldo primordial. Creio que foi a minha primeira ejaculação: penso que é uma coisa mais proibida do que cortar a garganta a um alemão.  (…)"

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)