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Vida no mar ensina: Quarentena é ‘fácil’, acreditem…

Os navegantes do NRP ‘Sagres’ enviam uma mensagem de esperança a quem tem de permanecer em isolamento.
29 de Março de 2020 às 12:00

Atracámos no Waterfront, no Porto de Cidade do Cabo, no dia 25 de março. Nesse dia, encontrávamo-nos no 23.º dia de navegação. Foram 23 dias durante os quais, em guarnição, e sob as direções do nosso Comandante, trouxemos a nossa ‘barca’ a bom porto.

O NRP ‘Sagres’ tem um comprimento fora a fora de 89,9 metros e uma boca (termo náutico para a largura do navio) de 12 metros, e dois pavimentos habitacionais. Somos 140 militares e dois convidados (um investigador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência - INESCTEC, da Universidade do Porto, e um oficial convidado da Armada da Argentina) a viver e a dividir o mesmo espaço durante esta navegação. Desafiante? Por vezes. Exequível? Absolutamente!
Porque falamos disto? Porque queremos, deste modo, passar uma mensagem de incentivo, completa e total compreensão para com as dificuldades de quem se sente ‘preso’ em casa.

Talvez por sermos militares, por estarmos habituados à disciplina, por regermos os nossos dias com horários e rotinas bem definidas, passamos pelos dias de mente ocupada e com uma naturalidade própria. Cumprindo, de certa forma, uma espécie de ‘quarentena’ de cada vez que navegamos…

Há um aspeto curioso que resulta, certamente, da experiência e da cultura naval que corre nas nossas veias de marinheiros descobridores. A adaptabilidade da vida no mar. Quem anda no mar, mesmo sem ser na componente militar, sabe que estão presentes momentos fáceis, com mares e ventos de feição, pores-do-sol mágicos e navegações com golfinhos e baleias, mas também grandes desafios, como intempéries que nos atormentam o descanso e que não deixam os pertences sossegar no seu lugar, rebolando de um lado para o outro dos armários ou caindo no chão, uma autêntica orquestra desorganizada em fase de afinação antes do início do concerto.

Sabemos que depois da tempestade vem a bonança. Mas não nos podemo ‘encostar’ a esse facto. A bonança virá, certamente. Entretanto, compete-nos a todos a responsabilidade de ‘pear os nossos pertences’- cumprindo com as medidas impostas -, e meter o navio à capa – deixando que os especialistas façam o seu trabalho.

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