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Vida selvagem nos centros de reabilitação

Quinas está a recuperar no Algarve, mas pelo País há outras histórias de sobrevivência.
Marta Martins Silva 7 de Julho de 2019 às 11:00
Quinas
Quinas FOTO: Direitos Reservados

O alerta chegou quando faltavam dez minutos para o meio dia e em menos de uma hora uma equipa de resgate do centro de reabilitação de animais marinhos do Zoomarine – uma espécie de INEM para os animais que vivem principalmente ou exclusivamente no mar – estava na Meia Praia, em Lagos, para ajudar noresgatedatartarugadecouro macho que ali ficara emaranhada em cabos de armação de pesca.

Quinas, assim foi batizada, estava há três horas a lutar contra os cabos e daí os cortes por abrasão e ferimentos que apresentava quando foi recolhida. Não é um animal incomum nas águas portuguesas, mas o facto de mergulhar a mais de 1000 metrosdeprofundidadefazcom que normalmente se encontre em alto mar e não junto à costa, onde apenas, por vezes, vem alimentar-se.

É a única espécie de tartaruga marinha que não tem placas dérmicas, as escamas que formam a carapaça, o que significa que tem uma pele mais delicada e por isso mais frágil, o que faz com que tenha sido deslocada com muitos cuidados. Viria a ser retirada com a ajuda da PolíciaMarítima,queacoplouuma plataforma de madeira a duas motas de água que permitiram levar a tartarugaatéumacarrinhadecaixa aberta onde os seus quase 300 quilos e dois metros de comprimento couberam,antesdechegaraoPorto d’Abrigo,emAlbufeira.

De então para cá tem sido uma roda viva para a equipa de 40 pessoas que trabalha no centro onde a tartaruga está em observação, para garantir que não contrai nenhuma infeção por vírus ou bactérias, nem uma pneumonia que possa ser fatal.

Uma recuperação à medida
Enquanto recupera num tanque equivalente a uma contida cama de hospital – para, em caso de emergência, os médicos e enfermeiros veterinários terem a capacidade de a agarrar, imobilizar ou retirar da água se a sua saúde ou sobrevivência estiverem em risco –, já se foi buscar 30 quilos de medusas ao barco de um mestre do Barreiro (a equipa do centro saiu do Algarve às cinco da manhã), há técnicos laboratoriais que estão a processar o sangue deste animal para garantir que é acompanhada a evolução dos parâmetros bioquímicos e também há quem esteja a criar um sistema equivalente às passadeiras dos ginásios para poder nadar sem se magoar.

"Como não está habituado a ter barreiras, porque no mar nada em qualquer direção e a qualquer velocidade,aenfermeiraveterinária Antonieta Nunes criou uma cinta especial que está acoplada a um sistema rotativo no topo da piscina. Sempre que o animal nada contra o limiar da piscina, uma corda vai começandolentamenteaesticare, sem o magoar – porque a cinta o protege – cria alguma resistência, fazendo com que consiga exercitar--se sem bater em nada", explica Élio Vicente, diretor deste centro privado licenciado pelo Estado e que foi o primeiro do País a fazer a reabilitação de animais marinhos.

A enfermeira de que fala Élio tem todos os dias levado a cinta para casa para fazer pequenos ajustes na sua máquina de costura, com o mesmo cuidado que os vários técnicos garantem a todos os animais que ali chegam a precisar de ajuda antes de poderem regressar a casa, embora não possam cultivar ligações emocionais com estes pacientes.

"Nóspodemosligar-nosaeles, mas temos de garantir que estes animais não gostam de nós, não confiam em nós e que evitam qualquer tipo de interação connosco porque eles vão voltar todos ao ambiente selvagem. E nesse ambiente o maior inimigo continua a ser a nossa espécie, por isso temos de garantir que não têm qualquer tipo de associação positiva,emtermosdememória, com a permanência connosco. As rotinas têm de ser feitas sem que os animaisseapercebamdequeas coisasboas,comoacomidaea brincadeira, vêm da parte dos humanos", continua o diretor a quem também marcou a história de uma tartaruga confiscada num aeroporto português e que viajava dentro de uma mochila.

"O Estado pediu-nos para manter o animal enquanto o processo judicial decorria e para o reabilitar. Essa tartaruga tinha uma ferida numa barbatana, que infetou, entrou em gangrena e acabou por ser amputado: perdeu uma barbatana peitoral inteira, mas conseguimos ensiná-la a viver uma vida autónoma, e quando foi libertada conseguiu nadar até ao Brasil, o que foi incrível."

A equipa do Porto d’Abrigo sabe que este animal chegou são e salvo ao outro lado do Atlântico por causa de um sistema de GPS – colocado em espécies ameaçadas – que lhes permite acompanhar a rota seguida pelos animais libertados, o mesmo que vai acontecer com um milhafre real que, dentro de dias, vai ser libertado pelo Centro de Recuperação de Animais Selvagens do Hospital Veterinário da Universidadede Trás-os-Montes e AltoDouro (UTAD).

"Através do GPS conseguimos ver a que velocidade vai, quanto tempo está em cada sítio, se parou para comer... Se aparecerem muitos pontosdurantemuitotempono mesmo sítio é porque o animal caiu, e se mudou de trajetória é porque alguém o apanhou", descreve Filipe Silva,vice-diretordohospital.A ave de rapina esteve um ano no centro a ganhar músculo e a treinar a sua capacidade de caça para poder voltar apta à natureza.

"Temos um túnel circular em que as aves fazem 20 voltas e é como se fizessem quilómetros lá dentro sem encontrar obstáculos, o que lhes dá muita massa muscular. E depois fazemos uns exercícios de caça: penduramos uns ratinhos e as aves têm de chegar lá e comê-los, é a prova de que têm instinto de caçador e que estão prontas para regressar à natureza". Do mesmo hospital, o médico veterinário Roberto Fargo lembra o abutre que lhes chegou muito ferido depois de ter sido atropelado por um camião no IP4 e que se recusava a voar depois de os técnicos tudo tentarem para o incentivarem.

"Até que precisámos de espaço e o transferimos para a nossa instalação da Torre de Moncorvo: assim que lá chegou não parou de bater as asas e pouco depois foi libertado."

Problemas de voo também alarmaram o Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens de CasteloBranco(CERAS),quando uma garça real com poucas semanas, que tinha caído do ninho numa altura em que ainda não tinha as penasbemformadas,viuassuas chancesdevoarcomprometidas. "Fez várias fraturas, tinha muitas lesões e hematomas no corpo e deu algum trabalho a recuperar, porque teve de ser imobilizada com uma ligadura durante algum tempo, depois seguiram-se várias sessões de fisioterapia que adaptámos à anatomia e fisiologia dela, com base em técnicas usadas em cães e gatos", recorda Filipa Lopes, médica veterinária responsável do CERAS.

"Não sabia como é que ela ia conseguir ter as duas asas a funcionar depois de tantas fraturas, mas a garça conseguiu alguma plasticidade graças à fisioterapia. O problema é que chegou a uma fase em que notávamos que já não poderíamos fazer muitomais,játinhaumagrande evolução mas o problema é que não sentia estímulo para voar. Estava sozinha, não tínhamos outras garças nem cegonhas na altura e, ainda por cima, era um animal que vinha do ninho e por isso não sabia que tinha as asas para voar", conta a médica, antes de partilhar a romântica solução que encontraram.

"Fizemos uma manobra um bocadinho arriscada e juntámo-la com um abutre preto que temos em recuperação e aquilo que ele fez com a garça foi ensiná-la a voar, assim que os juntámos, no dia a seguir ela já estava a começar a fazer os primeiros voos e era ver uma garça-real e um abutrepreto,espéciescompletamente diferentes, tamanhos diferentes, alimentações diferentes, a fazerem a sua higiene das penas lado a lado no mesmo tronco de uma árvore", recorda Filipa Lopes, que ao longo dos anos já viu chegar e partir centenasdeanimais,masnunca dirá adeus a este abutre preto.

"O Aloé, que nos deu uma grande ajuda na recuperação da garça-real, está connosco desde 2010 e é um animal irrecuperável depois de ter sido vítima de eletrocução. Mas tem servido,aolongodestesanos,de mãe e de pai de vários outros animais. Houve uns abutres pretos que soltámos com o transmissor que estiveram todos com ele na fase final derecuperaçãoparanãoficarem habituados a nós e reconhecerem um indivíduo adulto da sua espécie", acrescenta Filipa, que há dois anos recebeu no Centro um alcaravão, ave migratória que fugiu dos incêndios de Pedrogão Grande e a quem a inalação de fumo deixou desorientado. "Nessa altura recebemostambémumaapetardaque tambémnosmarcouporquenos obrigou a trabalhar ainda mais silenciosamente do que já é normal aqui no CERAS: é um animal que simplesmente já não tolera a nossa espécie.Quandoentrávamosna instalaçãoondeelaestavaconseguíamos ouvir o batimento do coração dela a metros de distância, de tal forma estava assustada."

António Cotão, responsável pela monitorização ambiental no Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens da Ria Formosa (RIAS) ainda lembra o milhafre real que ali chegou envenenado e que foi o primeiro caso de envenenamento que conheceu com final feliz.

"A ave foi encontrada em Castro Verde por uma equipa cinotécnica da GNR em conjunto com técnicos da Liga para a Proteção da Natureza, no âmbito de uma prospeção de terreno, e foi imediatamente encaminhada até ao nosso centro onde iniciou o tratamento de desintoxicação. Passadas apenas três semanas, este milhafre estava recuperado e foi devolvido à natureza. Mas a melhor notícia chegou quase um ano depois, quando recebemos a informação que o nosso milhafre real tinha sido observado num pequeno bando desta espécie perto de Frankfurt, na Alemanha, a quase dois mil quilómetros do local onde foi encontradopraticamentesemvida."Já MaríaCasero,diretoraclínicado RIAS, recorda a recuperação de uma águia-cobreira eletrocutada e que precisou de várias sessões de tratamento dos ferimentos, reabilitação, fisioterapia e musculação até estar em condições físicas que garantissem a sua sobrevivência em liberdade. Foi libertada e espera-se que tenha muitos voos pela frente.

"Somos viciados em libertações", brincaamédicaFilipaLopes,do centrodereabilitaçãodeCastelo Branco. "O que mais queremos é libertá-los e sentir que lhes demos uma segunda oportunidade na natureza, que é onde eles pertencem."

Talvez por isso Filipe Silva, vice-diretor do hospital da UTAD, não esqueça Urzeira,a loba selvagem nascida na Serra do Soajo no ano de um grande incêndio na zona e que ali chegou em 2012 com uma pata partida. A loba mobilizou o centro para construir um abrigo para a acolher e recuperar, um cativeiro forçado de 65 dias na companhia de uma câmara que monitorizava os seus movimentos, mais sossegados durante o dia e mais agitados de noite, altura em que tentava fugir. Mas Urzeira aguentou o sofrimento e respondeu com saúde aos tratamentos que lhe foram sendo feitos durante os dois meses que permaneceu no centro. "A história era de sucesso. Depois de a reabilitarmos e libertarmos,oGPS indicou que a loba fez milhares de quilómetros. Percebemos que tentou reagrupar-se com os antigos companheiros que não a aceitaram de volta, mas já estava a criar a sua própria alcateia. Só que alguém com uma pontaria demasiado afinada fez-lhe uma espera e abateu-a a tiro." O Homem salvou-a, o Homem matou-a.

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