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Correio da Manhã

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Vontade de um abraço teu

“Livra-se dos sapatos de salto fino com um solavanco, despe o vestido”
Tiago Rebelo 8 de Julho de 2012 às 15:00
O homem estátua
O homem estátua

De repente, uma bátega medonha cai no meio do Verão. Tremendos riachos correm livremente, sobem os passeios, provocam uma desordem de carros que entope o trânsito. E no entanto faz tanto calor que uma neblina vaporosa se levanta, cobrindo a cidade molhada, e as pessoas vão pelas ruas como se caminhassem dentro de uma nuvem baixa. O dia esmorece numa melancolia pesada de tristes cinzentos e rostos fechados, ocultos nos guarda-chuvas que reaparecem fora de época.

Ela vem caminhando no crepúsculo. Leva as mãos enfiadas nos bolsos de uma gabardina resgatada à última da hora do fundo do armário, a gola levantada, o passo acelerado. Atravessa a rua, esgueira-se por entre as escovas intermitentes dos pára-brisas, pelos faróis prematuros, pelas buzinas exasperadas. Só quer regressar a casa, tomar um banho, descansar. Tem uma visão turva da rua, das lentes molhadas pela humidade, do assomo de uma lágrima indesejada que vem com a desilusão. Tira os óculos, guarda-os na carteira.

Tinha um encontro marcado, mas ele não apareceu, não disse nada, limitou-se a faltar. Ligou-lhe do telemóvel, enviou-lhe mensagens sem resposta. Esperou uma hora e meia, dois cafés, um bolo de arroz que mal comeu, esboroado aos bocadinhos com os dedos distraídos enquanto os olhos se fixavam na porta, desviados ocasionalmente para o gritinho de uma criança, o sorriso de um casal, o estrondo de uma bandeja no chão.

Entra em casa, tira a gabardina, vai para o quarto, livra-se dos sapatos elegantes de salto fino com um solavanco, despe o vestido, vai para a casa de banho, põe a água a correr, apanha o cabelo, toma um duche morno. Volta ao quarto, verifica o telemóvel enquanto se seca. Ele não telefonou, não disse nada. Põe a toalha de lado e, em vez de se vestir, deita-se em cima da cama. Está tanto calor, pensa, antes de adormecer.

A campainha desperta-a no escuro. Abre os olhos, acende a luz, tenta saber as horas, perdida no tempo, mas não tem relógio. A campainha insiste. Embrulha-se num roupão e vai acudir à porta. Abre-a e ali está ele, com uma expressão comprometida. Sente um alívio que não demonstra, ele perde-se numa sucessão de desastres que tem para se justificar. Até fiquei sem bateria no telemóvel, diz, foi um dia para esquecer. Perdoas-me?

Perdoo, responde. Larga o roupão ao puxá-lo para dentro, revelando-se, fecha a porta, deixa-se abraçar por dentro do roupão. Mas não repitas, avisa-o. Não, promete ele. Pensaste que te tinha deixado?, pergunta-lhe depois. Não, responde-lhe, esquivando-se ao desgosto que teve, só consegui pensar na vontade que tinha de um abraço teu.

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