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Wuhan: A cidade que o coronavírus pôs de quarentena

Tem mais população que Portugal. Mao Tsé-Tung teve ali a sua residência de férias.
Fernanda Cachão 2 de Fevereiro de 2020 às 06:00

O grande timoneiro nadou a 16 de julho de 1966 nas águas do rio que banha Wuham, acompanhado por guarda-costas, para mostrar que aos 73 anos estava em plena forma física. É considerado o maior ato de propaganda política da República Popular da China.

As imagens do pai fundador do país, líder histórico do Partido Comunista Chinês, fundador do maoismo, correram Mundo. Mao Tsé-Tung tinha a sua residência de verão em Wuham, a capital da província de Hunan onde nasceu, no povoado pobre de Shaoshan, a quatrocentos quilómetros, onde ainda hoje se idolatra o líder.

A ocasião é celebrada todos os anos, milhares de adoradores de Mao entram no Yangtsé, mas a cidade que banha já não é a mesma, tornou-se na meca do capitalismo à chinesa, rasgada por arranha-céus, povoada por lojas de cadeias ocidentais de vestuário, de ‘fast-food’, frequentadas pelos milhares de alunos de uma das maiores universidades chinesas e berço de unidades de produção das grandes marcas da indústria automóvel, o que já lhe valeu a comparação com Detroit, antes do declínio da cidade americana.

Ali vivem milhares de migrantes que trabalham nas grandes unidades da General Motors, Honda, Nissan, PSA e Renault, bem como nas chinesas Dongfeng (parceira e acionista da PSA) e SAIC (parceira da GM) que dá emprego a seis mil pessoas.

Mas foi na tradicional balbúrdia insalubre do mercado - que esteve para ser encerrado no ano passado e que vende peixe, mariscos e aves, mas também animais exóticos para consumo humano, de ouriços a crocodilos vivos - que foram identificados entre vendedores e frequentadores do espaço sintomas de pneumonia, depois reportados à Organização Mundial de Saúde no último dia do ano passado.

Uma semana depois, já em 2020, estava identificado um novo Coronavírus (2019-nCoV) que pôs a cidade de quarentena e espalhou o alarme pela província berço de Mao, contagiando depois o resto do Mundo, primeiro com o corte de várias ligações aéreas internacionais para evitar que o vírus viajasse. Ainda assim, poucos dias depois do alarme havia mais de seis mil casos em toda a China central, centena e meia de mortes, e o registo de casos em Hong Kong, Macau, Taiwan e outros países asiáticos, mas também na Austrália, nos Estados Unidos, na América do Sul e na Europa.

Esperava-se que 15 milhões de pessoas passassem por Wuham durante o período das miniférias do Ano Novo chinês - talvez muitas pudessem ter ido a poucos quilómetros a norte ao sítio arqueológico de Panlongcheng, que data da dinastia Shang, entre 1600 e 1046 a.C. Os gastos com entretenimento e transporte, segundo a S&P Global, devem cair 10 por cento por causa do
Coronavírus.

Cidade histórica

Wuhan tem mais habitantes que Portugal. Ali vivem cerca de 11 milhões de pessoas, apesar de tudo número pouco expressivo para os padrões chineses: é apenas a sétima cidade mais populosa da China quando classificada por população da área urbana.

Mas Wuhan tem uma importância vital na saúde económica do país - situada na confluência do rio Yangtze e do seu maior afluente, o rio Han, com 1500 quilómetros de extensão, é um importante centro de comunicação e distribuição para toda a China central e também para os principais parceiros económicos. Dali seguem as redes de transporte fluvial, aéreo e ferroviário que participam na engrenagem do crescimento da segunda maior economia do Mundo.

O centro económico, político e comercial da região é frequentemente chamado de a ‘via da China’ e economistas preveem que o impacto no Produto Interno Bruto chinês da quarentena parcial imposta pelo Coronavírus seja, pelo menos, de um por cento - caso a emergência não se perpetue muito para além das comemorações do Ano Novo chinês, a 25 de janeiro último, cujo tradicional feriado foi este ano comemorado com máscara protetora no rosto ou em casa, como impuseram as autoridades.

Em 2019, o crescimento do PIB de Wuhan foi de 7,8 por cento, 1,7 pontos percentuais acima da média nacional. O valor total das importações e exportações alcançou 244 mil milhões de yuans (cerca de 40 mil milhões de euros), um recorde que foi de 13,7 por cento acima do ano anterior e representou 61,9 por cento do valor total do comércio exterior da província.

Mais de 300 das 500 maiores empresas do mundo estão presentes na cidade, incluindo a Microsoft. Nos últimos anos, Wuhan investiu para se tornar num centro de alta tecnologia, especialmente para a indústria ótica. Ainda assim a sua reputação como a ‘cidade automóvel’ da China nunca esmoreceu, o seu impacto como grande centro logístico influencia sobremaneira a saúde económica da China de que chegou a ser brevemente e em duas ocasiões, a capital - em 1927 e novamente durante a terrível Segunda Guerra Sino-Japonesa, em 1937.

Mas já em 1911 Wuham tinha marcado a história daquele grande país, quando foi palco da chamada Revolta de Wuchang, que derrubou a última dinastia imperial. Quinze anos depois, as tropas comandadas por Chiang Kai-shek conquistaram a cidade, dando fôlego ao controlo do território pela aliança entre o seu Kuomintang (KMT) e o Partido Comunista, que compreendia já todo o sudeste do país.

Mas Wuhan foi também símbolo da divisão entre o KMT e os comunistas. A guerra com o Japão, que invadiu a China como parte dos seus planos expansionistas ainda antes da Segunda Guerra Mundial, pôs fim às tentativas de Chiang Kai-shek de unificar o país. Ante o avanço japonês, o governo do KMT viu-se obrigado a abandonar a capital, Nanjing, retirando-se para Wuhan e, depois, para a cidade remota de Chongqing.

Em julho de 1967, no auge da Revolução Cultural, ocorreu o chamado ‘incidente de Wuhan’: um conflito armado entre dois grupos que lutavam pelo controlo da cidade. As duas forças opostas eram o ‘Milhão de Heróis’ e a ‘Sede Geral dos Operários de Wuhan’.

O primeiro integrava 500 mil pessoas, principalmente trabalhadores qualificados, funcionários públicos e do partido, e foi apoiado pelo comandante da Região Militar de Wuhan, general Chen Zaidao. A ‘Sede Geral’, com outros tantos apoiantes, era composta por operários e estudantes da Guarda Vermelha. Envolveram-se numa guerra de propaganda visando obter o apoio da comunidade local - Mao era presidente do Comité Central do Partido Comunista da China e já tinha nadado nas águas do Yangtsé.

Doze dias depois, a 28 de julho de 1966, os representantes da Guarda Vermelha escreveram a Mao, reivindicando rebelião e revolta para levar avante a Revolução Cultural. Muitas pessoas acusadas de serem contrarrevolucionárias foram constrangidas ao suicídio.

Durante o ‘agosto vermelho’ de 1966, houve 1772 mortos só em Pequim. Em Xangai, houve 704 suicídios e 534 mortes relacionadas com a Revolução Cultural, em setembro. Em Wuhan registaram-se 62 suicídios e 32 assassínios. O ‘incidente de Wuhan’ foi considerado crucial na evolução da chamada Grande Revolução Cultural Proletária.

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