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X-Files Bruno de Carvalho: O leão não ruge baixinho

O presidente do Sporting não tem papas na língua, Se calhar sai ao tio-avô, almirante Pinheiro de Azevedo.
Miriam Assor 22 de Maio de 2016 às 15:30
Bruno de Carvalho
Bruno de Carvalho FOTO: Duarte Roriz

Na infância imitava Jô Soares. Adorava discursar. Esse gosto de falar, falar, continua. Até no Conselho Leonino – o órgão que faz o aconselhamento ao presidente – só se ouve a sua laringe. Criança irrequieta e com graça. Desde novo mostrou-se um contador de histórias. De humor sagaz e de uma impaciência disfarçada, Bruno de Carvalho, tido como um tio brincalhão, um filho dedicado, um marido entusiasta e um pai que idolatra as suas meninas, é um membro familiar muitíssimo presente. O fundador da sua religião, e sabemos, é José Alfredo Holtreman Roquette. Amante de comida japonesa, gosta de viajar em direcção a destinos exóticos. Ao cinéfilo não lhe sobra agenda para ir a uma sala de cinema, mas vinga-se nos milhares de DVD que estão no seu apartamento no Lumiar, vizinho do estádio de Tomás Taveira.

Filho de Rui de Carvalho, engenheiro hidráulico, e de uma professora de Matemática, que trabalhou na Assembleia da República, nasceu com o véu intacto. Caso raro. O facto de a bolsa amniótica não se ter rompido levou o obstetra, em Lourenço Marques, a alvitrar que o bebé haveria de ser um líder. Em 23 de Março de 2013, o destino daria crédito ao senhor doutor. Bruno de Carvalho cumpria um sonho antigo: ascendia a presidente da sua paixão desmedida. Casou-se duas vezes, tem duas filhas, uma de cada casamento, e idolatra amorosamente a descendência. Alexandra Carvalho, a irmã mais velha de quatro irmãos, reconhece que pão de Deus acompanhado com Sumol de ananás resumia-se a um dos pitéus preferidos do irmão mais novo, só agora posto de lado por José Maria Tallon. Em meio ano de regime alimentar, e com a ajuda de comprimidos, perdeu 22 kg. E dois campeonatos.

O presidente do Sporting Clube de Portugal já morou no Bairro Azul. Na noite da Consoada transforma-se no Pai Natal que distribui presentes com barrete dourado. A outra cor, nunca. A vida, contudo, deu-lhe um trio de excepções incontroláveis: um dos seus melhores amigos é benfiquista ferrenho, um ex-cunhado é neto de um presidente do Benfica, e Pedro Proença, ex-árbitro, é seu amigo das épocas académicas. Para alívio, os pais, as duas irmãs, o irmão, sobrinhos e sobrinhas, nenhum vibra pelo clube da Luz. Bruno de Carvalho, ainda miúdo, entendeu que o mundo girava à volta do título da obra do seu avô, Eduardo de Azevedo, ‘Vida e História do Sporting Clube de Portugal’. Pelos corredores da casa, jogava às caricas e assim ficava horas a fio, a competir com ele próprio. E, a poucos segundos do fim, o seu Sporting conseguia ganhar sempre com uma grande jogada. O feito que pôde realizar em criança aguarda realização nos seus três anos de mandato. Calma, garante um anónimo seguidor. É o que falta ao homem que veio ao mundo a 8 de Fevereiro de 1972. Ansioso. Irreverente, emotivo, em excesso. Ultrapassa pela direita. Sente-se bem com almas que lhe prestam vassalagem. Frontal. Corrosivo. Genuíno: nunca está a representar. Se tomarmos em consideração os palavrões que conhece e diz – e há quem ouviu dos fortes – é provável que tímpanos sensíveis sofram.


A franqueza deste que coleciona tudo que tenha a ver com o emblema leonino é tanta que chegou a usar a explanação do mecanismo das nádegas, a propósito das eleições para a presidência da Liga. Este à-vontade pode ser de família. O seu tio-avô, o almirante Pinheiro de Azevedo, durante o acalorado Novembro de 1975, respondeu aos manifestantes sem aftas na língua: "Vão à merda, e bardamerda."


ALUNO MÉDIO

Estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho. Aluno médio. Formou-se em Gestão pelo Instituto Superior de Gestão (ISG) e é mestre em Gestão do Desporto – Organizações Desportivas. As firmas onde consta o seu bom nome tiveram os finais que rondam a destituição, a dissolução e a insolvência. Pedro Baptista, coordenador da Fundação Sporting, conheceu-o ainda só adepto em 2009, no Estádio de Alvalade: "Bruno de Carvalho é um apaixonado pelo Sporting, e o que o motiva é essa paixão. Alguém muito rigoroso. Não toma decisões incalculadas." Vozes contrárias apontam-lhe o dedo indicador: ele julga saber de tudo e decide tudo. Despediu funcionários, aumentou-se para o dobro: de cinco mil euros passou para dez. O dinheiro arrecadado nas competições europeias irá, ou já foi, para o bolso da equipa técnica. O clube anda a gastar mais do que possui e Jorge Jesus é caríssimo. A venda de Fredy Montero não deu para tapar buracos. A SAD do Sporting teve um estrondoso prejuízo (o maior dos três grandes): 18 milhões no último semestre de 2015. Números negativos justificados pela derrota no caso Doyen e pela eliminação da Liga dos Campeões. Mas há atitudes imunes ao cacau, que não vem do Brasil. O caso de Marco Silva. A forma deselegante da gravata e do casaco ter servido de argumento. 

Luís Duque, em tempos, disse: "Bruno de Carvalho gasta dinheiro do clube para pagar a tribunais e advogados. É por isso natural que continue a promover processos sempre com um sentimento de vingança. O dinheiro não é dele, é do clube." Em Junho de 2015, Godinho Lopes, Nobre Guedes, Carlos Freitas e o próprio Luís Duque viram a absolvição numa das três acções judiciais do clube de Alvalade. Godinho Lopes, por sua vez, instaurou processos contra Bruno de Carvalho. E o Abril de 2016 não esteve fácil: o Tribunal da Relação de Lisboa rejeitou os recursos da Sporting SAD e confirmou que o clube terá de compensar em 209 461 euros, acrescidos de juros, Carlos Freitas, antigo director-geral da SAD. A Maurício do Vale, antigo relações-públicas do clube, dispensado de funções, foi-lhe dada razão e indemnização pelo Tribunal do Trabalho. O próximo a processar é Renato Sanches.


Valha-lhe a família. A antropóloga Alexandra Azevedo Carvalho, a irmã mais velha, que integra a companhia de teatro Fatias de Cá, diz: "O Bruno é muito trabalhador. Vai a todas. Arregaça as mangas e trabalha. Leva tudo profundamente a peito, e é uma pessoa de uma sagacidade gigante. E, claro, está metido num mundo de tubarões." O 40º aniversário, festejado no Café In, comprovou que a vida de Bruno Miguel Azevedo Gaspar de Carvalho cinge-se à sua família sanguínea e à família sportinguista. Jaime Marta Soares, presidente da Assembleia do Sporting, não é forreta: "Muito inteligente e com uma capacidade de trabalho que ultrapassa a média. Tem vindo a fazer um trabalho extraordinário de recuperação económico-financeira e desportiva." Este ex-deputado do PSD, contudo, não cegou: "Ainda é um jovem, irreverente, porventura polémico. Ninguém é perfeito." Também da social-democracia vem a opinião de Fernando Ruas, que encabeçou a Comissão de Honra do candidato às eleições leoninas: "O Sporting com Bruno de Carvalho está mais forte." O partido fundado por Balsemão tem tradição na família de Bruno de Carvalho.


E a fugir às tradições são as demissões. Ricardo Pina Cabral, vogal suplente do Conselho Fiscal, após o final da taça do ano transacto, apresentou a demissão. Rui Morgado abandonou a vice-presidência da Assembleia Geral da SAD do Sporting, furioso. Quis saber de uma lista que circulou na internet, ‘O Lado Negro do Sporting – Os 6 apóstolos’, cuja fonte seria o próprio clube e que incluía nomes de seis sportinguistas não queridos pela direcção. Miguel Morgado, que fora director de comunicação no período de Godinho Lopes, e irmão de Rui Morgado, lá estavam.


Também Vítor Silva Ferreira renunciou ao cargo. O ex-vice-presidente para o património e administrador da SAD é alguém – assevera um sócio do Sporting – que muito ajudou Bruno de Carvalho a ascender à presidência. O advogado assinava a carta de cessação no dia das mentiras. Talvez fosse um recado.

As relações com o outro grande de Lisboa, o Benfica, estão cortadas. Carlos Xavier jogou grande parte da sua carreira no Sporting e nunca viu tanta rivalidade.
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