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X-Files Diogo Lacerda Machado: "Mon ami" António Costa

Se não fosse convocado a botar opinião sobre assuntos de Governo, talvez a grande amizade tivesse passado desapercebida.
Miriam Assor 24 de Abril de 2016 às 15:30
Diogo Lacerda Machado
Diogo Lacerda Machado FOTO: Paulo Spranger/Global Notícias

Acorda cedo. Marca reuniões em horas impróprias para calões. Ri com facilidade. Dispensa motorista. É adepto de jogos virtuais de simulação de voo. Diz-se que sabe de cor a cifra de todos os aeroportos. Possui uma memória miraculosa. É capaz de se lembrar o que não lembra ao diabo. Um colega de época universitária, e que não milita o partido sediado no Largo do Rato, põe as mãos no fogo, e sem luvas, convicto de que não as queimará: Diogo Campos Barradas de Lacerda Machado não possui fortuna. O jurista, que não dá a cara por causa das tosses profissionais, não se refere à marca de tabaco espanhol.

O negociador da absoluta confiança do primeiro-ministro abraça, sim senhora, um dó ré mi de funções, o que não o promove a um Champalimaud. O seu nome completo, ainda assim, integra os órgãos sociais de, algumas empresas; Reditus, cujo Conselho de Administração é liderado por Miguel Pais do Amaral, o apelidado "mon ami de António Costa" preside a Comissão de Remunerações. Na Geocapital, uma sociedade de investimento encabeçada pelo multimilionário Stanley Ho, é administrador, e nessa mesma sociedade, que investe em Macau, em Portugal e nos PALOP, e que possui participações nos bancos africanos, Diogo Lacerda Machado assume posições de altos cargos. Na sua última declaração, os rendimentos brutos para efeitos de liquidação do IRS não excediam os 95 mil euros.

Aparentemente, não é abastado. Proprietário de um apartamento e de um par de automóveis, não se perde por tremoços, mas por ostras, e encontra satisfação na cerveja que vem da Bélgica. O músico inglês, Peter Gabriel, consegue que Diogo Lacerda faça tudo, até ir ao Festival Super Bock Super Rock, na Aldeia do Meco, em 2012, e agarrar-se às grades para ver o concerto sem cair. O futebol, que beneficia um lugar estimado, é jogado às nove da noite de terças-feiras, no colégio Pedro Arrupe. O Sporting Clube de Portugal merece-lhe coração, e os anos de jejum da taça do campeonato nacional ensinaram-lhe a crer na esperança. Um dos seus pratos preferidos, cozido à portuguesa, é servido no melhor restaurante – a sua casa – em Telheiras.


Tido como alguém que preserva e honra o sentido de família, as suas colunas constituem-se exactamente nesse sentido: Maria Teresa de Carvalho de Alvarenga, a mulher que lhe deu três filhos, Francisco, 29 anos, João, 27 anos e a mais velha, Joana, 38 anos, casada com João Gonçalves Pereira, antigo deputado do CDS-PP actual vereador na Câmara Municipal de Lisboa. Avô babado de babete ao pescoço, o mimo que dá aos três netos passa também pelo jogo do lego, das bandeiras dos países do mundo e, claro, aviões.    


ALTOS VOOS

Os aeroplanos são o seu maior deslumbramento, uma fascinação que remonta à infância, na altura em que o pai, o militar Nuno Pereira de Sá Nogueira de Lacerda Machado, esteve, por duas vezes, em missão em África (1961 e 1963 e 1965 e 1967). O capitão de Cavalaria não iria sozinho; acompanhou-se, e bem, por Regina Amélia Campos Barradas, a esposa, os três filhos e filha. Diogo Lacerda Machado, o último a nascer em 17 de Maio de 1961, ficou marcado com os céus em São Salvador do Congo, em Santo António do Zaire e em Luanda, onde os aparelhos que necessitam de asas fixas para se sustentar no ar, maravilhavam-no.


Essa subida e descida de motores, levá-lo-ia, depois, e já órfão de pai, aos 11 anos, ao aeroporto da Portela para ali pedir informações sobre os horários das chegadas e partidas dos aviões e dos seus respectivos tipos. Aprendeu tanto, que hoje é capaz identificar a espécie da aeronave, o seu destino ou a sua origem, e a companhia aérea a que pertence, só de os ouvir passar. Na adolescência, juntava dinheiro para comprar uma passagem Lisboa-Porto-Lisboa. Assim que aterrava na Invicta regressava para a capital. Incontáveis serão os aviões que ao longo da vida andou, mas nenhum – e isso diz publicamente – no que respeita a segurança, se equipara à frota TAP.

Se há pessoa que conhece a transportadora aérea portuguesa é Diogo Lacerda Machado. Ele que intermediou um leque de processos em representação do primeiro-ministro: os lesados do BES, no negócio do BPI, as reuniões entre Isabel dos Santos e o catalão Caixabank também o referente à reversão da privatização da TAP. No passado, não muito recente, esteve enrolado em mercancias encadeadas com a TAP, e estamos a falar na venda da brasileira VEM à TAP, um negócio que se encontra na investigação do Ministério Público. Investigados idem idem aspas aspas, recapitula António Galamba num jornal, estão contratos de compra e de manutenção dos meios aéreos de combate aos incêndios, que envolve Diogo Lacerda Machado nos negócios dos helicópteros Kamov e do sistema integrado de emergência e segurança de Portugal (SIRESP).


A ideia do amigo pessoal de António Costa representar informalmente o governo não agradou a oposição, a coligação, e mais gente houvesse. A pressão do PSD, CDS-PP, Bloco e PCP acabou por dar frutos: o advogado viu-se empurrado, para não dizer obrigado, a assinar um contrato de prestação de serviço de consultadoria estratégica e jurídica, iniciado em Abril e que finda em Dezembro de 2016. Forçado a "manter sigilo e garantir a confidencialidade", o dever de silêncio mantém-se em vigor até cinco anos depois da extinção do acordo. O salário mensal bruto da avença é de dois mil euros, aos quais acresce o tradicional IVA. Para Costa, António, chefe do governo "É dinheiro que podia não ser gasto": Amigos assim existem, mas escasseiam. O primeiro-ministro deu a entender que o seu amigo, o seu melhor amigo, seria capaz de dar uma, duas, as borlas que fossem necessárias. Fonte próxima confirma esta suposição: "Antes de assinar o contrato ele (Diogo Lacerda Machado) não recebeu um cêntimo. A sua generosidade é sincera ."  


AMIGOS PARA SEMPRE

António e Diogo, amigos de velha data, não pertenciam à mesma turma, e não precisaram desse detalhe para cimentarem as afinidades dos tempos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, na década de 1980, numa amizade sólida. Juntos fundaram na Associação de Estudantes um departamento de apoio jurídico, muito embora a sua participação tenha passado despercebida a Telmo Correia: "No tempo da universidade eu não me lembro de Diogo Lacerda". A memória de Telmo Correia somente o apanha como o secretário de Estado no governo de António Guterres: "Uma pessoa que me pareceu ser positiva e concordata". Diogo Machado nunca militou no PS, mas inscreveu-se como simpatizante para votar nas primárias que elegeram António Costa a primeiro-ministro. Estreou-se uma só vez no Governo socialista: para trabalhar com Costa na pasta da Justiça.

Para termos a ideia do afecto que os une, Diogo e Teresa Machado foram, em 1987, os padrinhos de casamento de António e de Fernanda cujo copo-de-água, resumiu-se a um hambúrguer fugaz no Abracadabra na Rua do Ouro. O casal Lacerda Machado já havia celebrado o matrimónio, em 17 de Dezembro de 1984, e a filha Joana contava com seis anos. Quando sentiu a paternidade pela primeira vez tinha 17 anos, estudava no Liceu Rainha D. Leonor, e frequentava o Colégio Militar. Antes do enlace na Igreja de São João de Brito, a conclusão da licenciatura de Diogo impunha-se elementar.

Diogo e António compraram cada um, um T0 à EPUL e os casais vão viver para Carnide. Parece um final feliz, mas a história ainda não acabou. Quando Magalhães e Silva, recém-nomeado secretário-adjunto para a Administração e Justiça de Macau, necessitou de fundar equipa, solicitou a António Costa, seu estagiário, que lhe sugerisse três "alunos classificados de Direito". A sugestão saiu-lhe sem hesitação: Diogo Lacerda Machado, Pedro Siza Vieira e Eduardo Cabrita (ministro-adjunto do primeiro-ministro). Diogo Machado chegaria a Macau no verão de 1988, com a esposa e dois filhos (o terceiro nasceria no ano seguinte). Laborou na composição do sistema de administração judicial para passagem do território e na actualização da legislação de Macau. Ia à ilha de Coloane, porque só de trabalho morre-se jovem. Jorge Coelho, que igualmente aterrara em Macau no mesmo período, organizava um jogo de futebol semanal com 13 portugueses, entre os quais Murteira Nabo, Jorge Oliveira, o actual secretário de Estado da Internacionalização, e o homem do momento – Diogo Machado. "É uma pessoa competentíssima e honesta". Um médio em campo e um avançado nas negociações.
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