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Correio da Manhã

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O futuro decidido por nós

Os ensinamentos de equilíbrio elementar na relação do homem com o território na perspectiva da poética zen.
29 de Julho de 2018 às 01:30
Gary Snyder
Gary Snyder FOTO: Getty Images
Por: Adolfo Luxúria Canibal

A Beat Generation formou-se em Nova Iorque no despontar da década de 1950 à volta de poetas e escritores como Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William S. Burroughs e Gregory Corso. Gary Snyder, a par de Philip Whalen, Lew Welch e Kirby Doyle, compôs o núcleo duro da Costa Oeste, que compreendia ainda, entre outros, Lawrence Ferlinghetti e Michael McClure.

Snyder foi mesmo, com Allen Ginsberg, Philip Lamantia, Michael McClure e Philip Whalen, um dos cinco talentosos jovens poetas convidados para a mítica leitura da Six Gallery, em San Francisco, de 7 de Outubro de 1955, apresentada por Kenneth Rexroth, figura tutelar da chamada San Francisco Renaissance, que constituiu a primeira manifestação pública da Beat Generation e onde pela primeira vez Ginsberg leu o seu poema ‘Howl’ (‘Uivo’), com o impacto que se conhece.

Mais conhecido como poeta – embora pouco traduzido em Portugal, onde só existe ‘Nada Natural’, uma antologia editada em 2017 pela Douda Correria –, Gary Snyder, a exemplo de muitos outros escritores Beat, nomeadamente Michael McClure, interessou-se também pela natureza e pelas filosofias orientais, especialmente pelo budismo zen, e foi um incansável ensaísta e activista ambiental.

‘The Practice of the Wild’, título original de ‘A Prática da Natureza Selvagem’, reúne precisamente nove ensaios sobre a relação do homem com a natureza e o território, fundindo crenças budistas com mitos e tradições selvagens numa viagem pelas culturas ancestrais do Sul da Índia, do Alasca e do Japão e uma reflexão sobre os propósitos da humanidade.

Abandonando a visão antropocêntrica da natureza e adoptando, na linhagem de Henry David Thoreau e de Dogen Zenji, uma concepção geocêntrica, a vida selvagem surge assim para Gary Snyder como modelo de aprendizagem e filosofia de vida, seja no amor à liberdade, na aceitação agradecida do que a vida traz ou na consciência do transitório.

E este ‘A Prática da Natureza Selvagem’ deixa claro o porquê de ser hoje encarado como figura maior da eco-literatura e da emergente disciplina da eco-crítica.


Livro ‘A prática da natureza selvagem’
Autor Gary Snyder
Editora Antígona



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