HomepageinterativoE Depois da TragédiaPartilhar

E Depois da Tragédia

Pedrógão renasce do "tremor de terra, antes de ficar dia" que matou 64 pessoas

Textos Fernanda Cachão Fotos Sérgio Lemos

Pedrógão renasce do "tremor de terra, antes de ficar dia" que matou 64 pessoas

Textos Fernanda Cachão Fotos Sérgio Lemos

Em quatro dias, no incêndio que começou em Pedrógão Grande e que se estendeu a mais oito concelhos da região Centro do País morreram, pelo menos, 64 pessoas, 46 das quais na EN236-1, e mais de 250 ficaram feridas. Meio milhar de casas ficaram total ou parcialmente destruídas. Arderam 45979 hectares de floresta, o equivalente a quase 46 mil campos de futebol. Ainda estão por apurar as causas dessa espécie de "tremor de terra, antes do dia ficar noite" - como explicou uma das vítimas - que ceifou vidas, queimou bens e memórias e pôs a descoberto uma burocracia que insulta as vítimas e que nem o país, nem os poucos meios dos municípios envolvidos conseguiram ainda acelerar.

Marion e Peter Ruiter, casal de 53 e 62 anos, vive em Salaborda Velha, Pedrógão Grande. A assistente social e o funcionário de uma empresa de computadores vieram há uma década da Holanda por influência da irmã dele, que já vivia em Portugal.

No dia do incêndio, Peter fugiu com a irmã e quatro cabras de Salaborda Velha onde vive há 13 anos. Peter e a mulher, Marion, perderam tudo. Só resta uma das empenas da casa, aquela onde numa placa homenagearam a avó do vizinho a quem compraram a casa, uma das três de habitação permanente das mais de vinte que ali existem. O casal tem pouco mais tem que a roupa do corpo. Do sonho de fazer um turismo rural, uma queijaria e de arranjar um rebanho de uma vintena de cabras, também para fazer a limpeza da floresta, resta o desânimo de quem já não se sente com forças para recomeçar de novo.

Amílcar Calhau, 38 anos, vive em Ramalho, Pedrógão Grande, com um irmão de 49. São ambos solteiros, a mãe deles está num lar em Albergaria dos Doze. É madeireiro e, quando há trabalho, ganha 35 euros à hora. Já esteve emigrado em França.

A casa da mãe de Amilcar, que vive num lar em Albergaria dos Doze, ficou sem o telhado. O madeireiro estava em casa de um vizinho e fechou-se lá dentro, enquanto o fogo passava. No Ramalho, enquanto o incêndio comia o telhado, o irmão dele pôs a cabeça dentro do congelador do frigorífico para aguentar a temperatura e conseguir respirar. "Vi gente com o lume a agarrar-se às camisas", conta o madeireiro que agora "anda a cortar madeira toda fucha e a chegar a casa todo negro". Quando já não houver árvores para cortar, terá de procurar trabalho noutro lado. Talvez volte a França, onde já trabalhou como serralheiro.

"Perdi um neto e a namorada dele. A minha nora ligou-lhe a dizer que havia aqui um incêndio muito grande e eles vieram, mas ficaram na estrada. Se eles tivessem vindo aqui primeiro, a gente já não os deixava sair. Houve casas que foram famílias inteiras. Isto foi uma coisa louca."

Rosinda Simões, 78 anos, Pobrais

Dorit e Klaus Oerterer são um casal de músicos alemães de 43 e 49 anos. Ele toca piano, ela flauta. Os cinco filhos rapazes, o mais novo já nascido em Portugal, tiveram aulas em casa com os pais. Vivem há 13 anos em Mó Grande, no concelho de Pedrógão. 

Quando as chamas desceram e comeram tudo, só estavam em casa Klaus e um dos filhos. Salvaram-se dentro da ribeira que passa no fundo do vale onde vivem. "Perdemos tudo, a casa, os carros com que chegamos a Portugal há 10 anos, mas temos de agradecer que ninguém morreu. Temos de dar graças a Deus", diz Dorit que a 17 de junho estava na Alemanha. Quando o incêndio acabou, Klaus plantou feijão assim que pôde. "Perguntei-me o que nascia mais depressa, queria que ela visse alguma coisa verde quando regressasse a casa." Dois dias antes, já se viam os rebentos.

João Conceição Silva, 62 anos, vive com a mulher e o filho desempregado em Souto Fundeiro, Castanheira de Pera. Trabalhou numa fábrica da região até se reformar com 364 euros. A mulher deu entrada em estado grave no Hospital dos Covões, em Coimbra. 

Quando o fogo chegou a Souto Fundeiro, João Conceição Silva, a mulher e o filho tentaram salvar o que podiam, mas não conseguiram mais do que as batatas, as galinhas e as ovelhas. Na aflição para salvar os anexos da casa, João queimou as mãos e os braços até aos cotovelos. A mulher e o filho ainda continuam internados. "Até lhes disse que íamos morrer todos". O irmão dele organizou um peditório para juntar dinheiro para comprar uma lambreta igual àquela que perdeu no incêndio. Assim ele pode ir ver a família. "Eu pensava que entrava tudo no seguro da casa e, afinal, não. Agora dizem-me que, por enquanto, não há verbas para este tipo de coisas. Vai começar o inverno e não tenho onde arrecadar nada."

Webdesign Edgar Lorga

Edição de vídeo Ismael Jesus

Produção multimédia Sandro Martins

Edição Alfredo Leite

Imagens de drone cortesia TomarTV

pub