Homepage interativo Miss Músculo Partilhar

Miss Músculo

Histórias de cinco mulheres que desmistificam o preconceito do fisiculturismo

Imagens Mariline Alves
Texto Marta Ferreira

Histórias de cinco mulheres que desmistificam o preconceito do fisiculturismo

Imagens Mariline Alves
Texto Marta Ferreira

Magras, de corpos elegantes e harmoniosos, tonificadas, mas sem músculos em exagero. Este é o padrão de beleza a que muitas mulheres são sujeitas ao longo da vida. Ana, Carla, Inês, Bruna e Mónica quebram todos esses padrões. São fortes, seguras, independentes e não têm medo de exibir os físicos musculados mesmo quando lhes dizem: "estavas mais bonita antes".  

As cinco mulheres treinaram e sacrificaram-se durante meses para participar na Wabba Portugal & Hercules Olympia, uma competição nacional que o Correio da Manhã acompanhou no Casino do Estoril. Mas a que preço? E o que motiva estas cinco mulheres, todas diferentes, com vidas comuns, a competir num mundo muito associado ao masculino? 

O Correio da Manhã foi conhecer as histórias de cinco mulheres culturistas que se assumem "felizes" e "bonitas" mesmo que nem sempre ouçam os comentários mais simpáticos sobre os físicos muito trabalhados. Ana, Carla, Inês, Bruna e Mónica contaram como entraram no meio, como as famílias veem os seus percursos e as dificuldades pelas quais passam antes da prova. Da fome aos treinos exigentes, do apoio da família às críticas de quem não compreende a "arte de esculpir o corpo". Entrámos nos bastidores de uma prova de culturismo e abrimos-lhe a porta para que conheça também.  
MÓNICA PEREIRA
A paixão pelo culturismo

Mónica Pereira, também conhecida por Mónica Perez, tem 43 anos e desde os 38 que compete. A sua vida vai além para lá do desporto apesar de este ser o seu grande amor. Caracteriza o culturismo como "a arte de esculpir o corpo" e garante que é a sua forma de descomprimir e viver a vida da melhor maneira possível. Não tem filhos e afirma: "Já tenho muitos [filhos] para alimentar todos os dias que são os meus músculos e tenho muito orgulho neles".  

Além do estilo de vida ligado ao culto do corpo, Mónica é massagista de estética a tempo inteiro e admite que chega a trabalhar de oito a 12 horas por dia, mas tenta sempre arranjar tempo para treinar: "Não há desculpas".  

A paixão pelo físico trabalhado não é de agora. Com 15 anos já treinava e admirava as "mulheres com formas e com músculos" e ambicionava o mesmo tipo de corpo. Mundo de homens? Mónica garante que não e desvaloriza o preconceito a que muitas mulheres musculadas são por vezes sujeitas: "Tem a ver com uma questão de gosto pessoal, há quem goste muito, há quem não goste tanto".  

ANA SOEIRO
Começou a competir aos 40 anos

Ana Soeiro é segurança. Afirma que tem habitualmente turnos de 12 horas diárias e, muitas vezes, é complicado conciliar a profissão com as competições de culturismo que exigem rigor, sacrifício e alimentação feita de forma quase matemática.  

Tem 43 anos e faz desporto há muitos anos, mas só há três começou a sua aventura nas competições. O namorado é preparador físico e é ele quem a ajuda neste caminho. O seu dia a dia é centrado no trabalho, treinos e preparação das ‘marmitas’ para o dia seguinte. Tudo de forma rigorosa.  

Diz, de sorriso no rosto, que os colegas a ajudam para que consiga comer de duas em duas horas ou de três em três conforme for preciso. Ana garante ainda que as mulheres aderem cada vez mais a este desporto: "Acho que é saudável e gratificante".  
INÊS BERTHELOT
O tempo gerido ao segundo

Inês Berthelot assume, de sorriso no rosto, que dorme cerca de cinco a seis horas por dia para conciliar uma profissão, as responsabilidades de mãe e o hobbie que é o culturismo.  

Inês tem 34 anos, é responsável de uma sapataria de calçado brasileiro e tem um filho de 13 anos. Na agitação do seu dia-a-dia ainda arranja espaço para fazer os seus exercícios de manhã e à noite numa gestão planeada quase ao minuto.  

Mundo de homens? "Ainda é muito", garante Inês acrescentando que esse fenómeno está a mudar porque "cada vez mais o fitness está na moda". A atleta assume que em Portugal, os músculos numa mulher não são tão bem vistos. "Uma mulher muito musculada não é bonita para a maioria das pessoas", admite. "Não peço para gostarem, só peço para aceitarem e respeitarem".
 

BRUNA SOUSA
O culturismo salvou-a da anorexia

Bruna Sousa tem 29 anos e a sua jornada no culturismo começou com um problema de saúde. A atleta fazia ginásio desde os 17 anos – aulas de cardio e de grupo em particular – e acabou por desenvolver um distúrbio alimentar: anorexia.  

Para se obrigar a comer, Bruna decidiu juntar o treino, que já fazia, à dieta e começou a sua aventura em competições. Traçou um plano alimentar e comia obrigatoriamente às horas determinadas no plano. "Era uma forma de eu comer tendo um compromisso, um plano que compensava o facto de eu não querer comer", assume. 

A culturista deu assim os primeiros passos nas competições e desde então não mais parou. Atualmente trabalha na área comercial de um ginásio, mas assume que o futuro passa por se tornar ‘personal trainer’.   
CARLA PEREIRA
"Diziam que estava mais bonita mas não era feliz"

A paixão pelos corpos musculados vem desde "pequenina". Carla Pereira, ou ‘Tininha’ como também a tratam, é esteticista e assume que sempre admirou os corpos esculpidos e trabalhados. Tem 48 anos e há dois que se iniciou na aventura da musculação. Em dezembro passado participou pela primeira vez num concurso.  

"Sempre fiz atletismo e era muito magrinha... sempre gostei de ver as pessoas assim mais ‘cheiinhas’ e mais musculadas desde pequenina", conta. Foi através de uma amiga que começou a fazer musculação com o fim de competir, no entanto, Carla assume que nem sempre é fácil. A dieta rigorosa aliada à privação de água no dia que antecede a subida ao palco foi um desafio.  

Porém, apesar dos sacrifícios, e de muitas vezes a sociedade não considerar um corpo musculado feminino bonito, ‘Tininha’ não tem dúvidas: "É-me indiferente se as pessoas gostam ou não gostam, o que me interessa é sentir-me bem comigo própria porque houve alturas que me diziam que estava mais bonita, mas eu não era feliz. E agora sou". 
A preparação

A preparação para uma prova de culturismo é exigente não só do ponto de vista físico como também do ponto de vista emocional. As privações alimentares, os treinos diários e exigentes e a eliminação da água corporal antes da prova tornam difícil contornar as mudanças de humor e as dúvidas antes da competição. Inês e Carla relataram ao CM essas mesmas dificuldades. 

Para Inês, por exemplo, o mais difícil são as dúvidas que surgem nos momentos mais complicados da preparação antes da prova. Essas são colmatadas pelo apoio do filho de 13 anos. Segundo conta, este é o seu maior apoio nos momentos de dúvida.

Já para Carla Pereira, a privação de água é o grande obstáculo. Assume que isso é mais difícil do que a restrição alimentar e que acaba por sofrer mudanças de humor devido a estas privações. Um fator que torna difícil a preparação, não só para si como também para quem a rodeia, mas assume que acima de tudo se sente feliz com o seu estilo de vida. 

A dieta das semanas que antecedem a prova é restrita não só pelo que se consome como também pela forma e horários em que se consome. O frango simples e arroz são os protagonistas da alimentação pré-prova.

O sal é também retirado de todos os alimentos cerca quatro de dias antes dos atletas subirem ao palco para que toda a água seja expulsa do corpo. Só horas antes da prova - com o consumo de batatas fritas - se volta a consumir sal para inflacionar os músculos.
 

Após a prestação, e um resultado feliz, há quem diga: "Benditas câimbras". O esforço valeu a pena.  

O espetáculo

Nos bastidores da competição de culturismo vimos homens e mulheres a prepararem-se para subir ao palco e nenhum pormenor podia ser esquecido naquele momento. 

Antes da prova, descansaram-se as pernas após a eliminação da água do corpo no dia anterior e no dia da prova. O objetivo deste ‘descanso’ é reduzir as câimbras que possam surgir causadas pela privação de água. Fazem-se ainda exercícios de musculação e há quem abane toalhas à volta dos atletas para evitar que transpirem uma vez que estão cobertos de bronzeador.

O bronzeador é um dos produtos essenciais para subir a palco. São postos com as mãos e até com rolos de pintura para cobrir todo o corpo do atleta. O objetivo? Criar sombras que possam evidenciar os músculos bem trabalhados.

O espetáculo é repleto de brilho e cada traço físico é analisado por um grupo de júris. Em palco, os atletas colocam-se em poses devidamente estudadas, que parecem mais fáceis do que são realmente, e aquele minuto em que são chamados para o lugar da frente, onde são protagonistas, define todo o trabalho dos últimos meses.

No final agitam-se os nervos para fora do corpo, batem-se palmas. E esperam-se os resultados. 

Imagens Mariline Alves 
Texto Marta Ferreira

Edição de vídeo João Silva e Liliana Gonçalves

Webdesign Edgar Lorga
Produção multimédia Sandro Martins