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Cruz Vermelha vai começar consultas com centro exclusivo para cólera já a funcionar em Moçambique

Sete tendas da CVP e dos Médicos do Mundo estão montadas junto do centro de saúde de Macurungo.
Lusa 28 de Março de 2019 às 19:42
Ciclone Idai
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A Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) e a organização não-governamental Médicos do Mundo inauguraram esta quinta-feira simbolicamente o início das operações em Moçambique, num complexo de tendas onde também é diagnosticada a cólera, com 38 casos suspeitos até agora.

Sete tendas da CVP e dos Médicos do Mundo estão montadas junto do centro de saúde de Macurungo, um dos bairros mais populosos e com piores condições sanitárias da Beira, ao lado de outras sete tendas montadas pela UNICEF e que vão servir apenas para despistagem e tratamento da cólera.

Na sequência do ciclone Idai, que assolou a região no dia 14, e das cheias que se seguiram, há já casos de morte por cólera na cidade e 38 casos suspeitos até à tarde desta quinta-feira no complexo da UNICEF, mesmo ao lado dos profissionais portugueses.

Na tarde desta quinta-feira em Macurungo, enquanto os 20 portugueses de forma simbólica davam início ao trabalho efetivo, faziam-se buracos no chão para colocar pilares e uma vedação a isolar a zona da UNICEF, com o apoio da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), especialmente dedicada ao tratamento da cólera.

O centro está a ser preparado "antes que haja uma eclosão dramática de cólera".

"Só ontem [quarta-feira] quatro casos suspeitos ficaram lá", disse à Lusa Armindo Figueiredo, médico dos Médicos do Mundo, um veterano neste trabalho, com missões já em países como Timor-Leste, Haiti, Sri Lanka ou Paquistão.

Armindo Figueiredo faz parte de um pequeno grupo de quatro profissionais da organização, que se juntou a outros 16 da CVP e que estão desde segunda-feira na Beira, para prestar apoio médico no hospital de campanha esta quinta-feira "inaugurado". Com eles vieram 35 toneladas de medicamentos, alimentos, material logístico (como geradores) e material médico. Todo esse material deve ser doado a Moçambique no final da missão.

As duas entidades vão ainda preparar um bloco de partos, a pedido das autoridades moçambicanas, e a partir de sexta-feira contam começar a dar consultas, em duas tendas que vão conter seis postos de atendimento.

O hospital da Cruz Vermelha era para ter sido hoje visitado pelo Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, até porque foi o primeiro a ser montado, mas a visita acabou por ser cancelada.

Lara Martins, vice-presidente da CVP e chefe da missão, também ela veterana mas em missões militares (na Somália por exemplo) em entrevista à Lusa, explicou que ao todo estão no hospital seis médicos e sete enfermeiros, além de outro pessoal, disse que a CVP entregou já 15 toneladas de alimentos ao Programa Alimentar Mundial, e explicou que a missão principal é reforçar o centro de saúde de Macurungo, em termos clínicos e materiais.

Já a funcionar no complexo da CVP/Médicos do Mundo está uma sala (tenda) que serve de centro de coordenação, e está preparada uma sala para doentes em cuidados intensivos e outra para serviço de observação, com equipamento de monitorização e macas. E outras duas tendas serão as duas salas de consulta, para já equipadas com material de desinfeção, cadeiras de rodas e outro material.

Segundo a responsável, o apoio dos portugueses para Moçambique através da Cruz Vermelha já chegou a 1,4 milhões de euros, o que dá à equipa em Macurungu "uma responsabilidade acrescida".

Os portugueses não vão estar diretamente envolvidos na questão da cólera, embora possam fazer reencaminhamento de doentes. Armindo Figueiredo lembrou, em declarações à Lusa, que a cólera exige um grande esforço de desinfeção, e disse que também há muitos casos de malária, pela proliferação de mosquitos devido à água acumulada.

A zona da UNICEF/Médicos Sem Fronteiras, que vai ter acesso condicionado, começa com uma tenda que servirá de sala de triagem, já a funcionar e com doentes deitados em macas, que têm um buraco no centro, porque a cólera provoca diarreias violentas, podendo matar por desidratação em poucas horas, como explicou à Lusa o médico português Gonçalo Órfão, da CVP.

Nessa sala controla-se o doente e fazem-se os primeiros cuidados médicos; se for diagnosticada cólera os doentes vão para enfermarias, uma para homens e outra para mulheres. A UNICEF está também a construir uma zona de desinfeção, que é feita à base de cloro, e estão a ser criados sistemas de latrinas. Ninguém da UNICEF fez declarações, remetendo para uma conferência de imprensa futura.

Com ou sem cólera, Armindo Figueiredo prevê umas próximas semanas cheias de trabalho e Gonçalo Órfão diz que ainda é cedo para dizer se vai ser grave a situação. "Os dados que são partilhados não são suficientemente concretos. Existe sim, mas depende da capacidade de a controlar".
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