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Interesse da Rússia em África abre oportunidades, mas há risco para democracia, avisam analistas

Para Alex Vines, uma das áreas em que os países africanos podem beneficiar da aposta russa é a educação e a formação profissional.
Lusa 8 de Janeiro de 2022 às 11:23
Escola em África
Escola em África FOTO: Reuters
Investigadores defendem que o crescente interesse da Rússia em África abre oportunidades para os países africanos, nomeadamente ao nível da educação, mas alertam para o risco de um retrocesso democrático e da erosão dos direitos humanos.

"Vivemos numa era de multipolaridade e por isso a escolha não é uma coisa má para um Estado africano", disse à Lusa o diretor do Programa Africano da Chatham House, Alex Vines, quando questionado sobre as vantagens e desvantagens do interesse russo em África para os países africanos.

A aposta de Moscovo no continente africano tem vindo a crescer, particularmente desde 2014 e para este ano está prevista uma segunda cimeira Rússia-África, que deverá ter mais substância do que mero simbolismo, segundo antecipa Andrey Maslov, diretor do centro de estudos africanos na Escola Superior de Economia de Moscovo, num artigo recente no jornal Moscow Times.

"Em 2022, a Rússia irá tentar de várias formas ter um papel estabilizador em África e ajudar a enfrentar os principais desafios que enfrenta - epidemias, a propagação do extremismo e dos conflitos e a fome", escreve o responsável.

A Rússia junta-se aos parceiros tradicionais dos países africanos -- as ex-potências coloniais europeias e os Estados Unidos -- mas também à China, que desde há cerca de 20 anos tem vindo a investir fortemente no continente.

Têm ainda surgido novos interesses por parte de países como a Turquia, Israel ou os Emirados Árabes Unidos, o que deixa os países africanos "numa posição muito interessante, porque agora podem optar e escolher com quem querem trabalhar", disse à Lusa a investigadora do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA, na sigla em inglês) Cayley Clifford, especialista na relações russo-africanas.

Para Alex Vines, uma das áreas em que os países africanos podem beneficiar da aposta russa é a educação e a formação profissional.

"Temos visto mais estudantes africanos a irem estudar para as universidades russas (...) e há um número crescente de bolsas e estágios na Rússia para africanos", disse o especialista, lembrando que esta é uma das áreas em que Moscovo pode "ajudar os países a reduzir a pobreza e a caminhar no sentido de se tornarem países de médio rendimento".

Cayley Clifford acrescenta à educação a saúde, nomeadamente no que diz respeito às vacinas contra a covid-19, tendo em conta que o continente africano ainda não tem sequer 10% da população totalmente vacinada.

"A vacina russa Sputnik-V, apesar de aprovada num número de países africanos, sofreu uma série de problemas e atrasos e os esforços não corresponderam às expectativas, pelo que penso que há aí oportunidades", disse.

O analista da Chatham House Aanu Adeoye lembra ainda que alguns países no Sahel, como o Mali, o Burkina Faso ou o Níger, precisam de ajuda para combater o 'jihadismo', mas os Estados Unidos não têm vontade de enviar tropas e a França está mesmo a retirar as tropas que tem no terreno, nomeadamente no Mali, pelo que a Rússia pode ser a solução.

"Muitas vezes é uma questão de encontrar ajuda onde se consegue encontrá-la", diz Adeoye.

No entanto, alerta, a ajuda russa é apelativa para Governos autocráticos que querem ficar no poder, já que Moscovo "não está preocupada com frivolidades como a democracia ou os direitos humanos".

Clifford recorda que a Rússia aposta muito no facto de que nunca colonizou África e que não pretende exportar qualquer modelo de governação, pelo que a sua cooperação não impõe qualquer condição aos Estados africanos, como faz o Ocidente.

"Penso que esta estratégia 'sem condições' pode realmente atrair muitos líderes africanos", mas isto reforça o argumento de que o aumento das relações com a Rússia "pode ser prejudicial para a democracia e o Estado de direito em África".

Para Alex Vines, os Estados africanos podem aproveitar o melhor de cada um dos parceiros e escolher "um pouco de Rússia, um pouco de América, China ou União Europeia, mas "devem poder seguir os seus objetivos com os olhos abertos e compreender quais são os interesses dos parceiros quais os limites do que querem.

"O perigo é que alguns países africanos possam tornar-se demasiado dependentes de um país em particular e há exemplos de que a Rússia pode ser um desses casos. O país experimental é a República Centro-Africana, que se tem envolvido profundamente com a Rússia nos últimos anos", alertou Vines.

No entanto, Clifford sublinha que "África não é um monólito. São 54 países individuais e cada um tem a sua agenda e irá envolver-se consoante os seus interesses e prioridades".

Segundo Adeoye, a maioria dos países africanos defende um mundo multilateral e mesmo os povos africanas, quando questionados em sondagens sobre que parceiro preferem para os seus países, dizem que querem poder falar com todos.

Perante as preocupações, Alex Vines aconselha: "Nunca subestimemos a política africana".

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