Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
6

Investigador diz que alastramento do conflito para Niassa significa que guerra vai levar mais tempo

"Enquanto apostarmos na via militar e nos esquecermos de outras opções, as políticas e estruturais, vai ser difícil resolver esta questão".
Lusa 31 de Dezembro de 2021 às 11:03
Pistola
Pistola FOTO: Getty Images
O investigador moçambicano João Feijó defende que o alastramento da insurgência para o Niassa mostra que a guerra vai levar mais tempo, reiterando que o problema dos rebeldes no norte de Moçambique não será ultrapassado apenas pela via militar.

"Isto significa que esta guerra se está a radicalizar cada vez mais e que vai levar muitos anos para ser resolvida", declarou João Feijó, pesquisador do Observatório do Meio Rural (OMR), em entrevista à Lusa em Maputo.

Em causa estão os sinais de alastramento da insurgência para a província do Niassa, vizinha de Cabo Delgado (norte de Moçambique), que começaram neste mês, com ataques esporádicos a pontos recônditos que provocaram a fuga de cerca de 3.000 pessoas e a morte de, pelo menos, outras cinco.

Para João Feijó, que está entre os investigadores moçambicanos que se têm dedicado exaustivamente ao estudo da guerra, o alastramento do conflito mostra que a aposta numa solução militar não é a resposta adequada, na medida em que há vários pontos do norte de Moçambique que têm condições para proliferação do radicalismo.

"Enquanto apostarmos na via militar e nos esquecermos de outras opções, as políticas e estruturais, vai ser difícil resolver esta questão. Estamos a tentar apagar este fogo com gasolina", alertou Feijó, lembrando que a estratégia de alastrar o conflito quando se está sob pressão é típica de movimentos de guerrilha e a própria Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder, usou-a durante a luta contra o regime colonial português.

O pesquisador moçambicano entende que o alastramento do conflito era previsível, principalmente para o Niassa, tendo em conta que uma parte dos rebeldes que conduziram a insurgência nos últimos quatro anos são oriundos daquela província, além de Nampula, outra província vizinha de Cabo Delgado.

"Eles têm ligações de recrutamento com o Niassa e a província tem ótimas condições para a movimentação de guerrilha, sobretudo na zona de fronteira e na zona da Reserva do Niassa. Eles ali podem caçar e se alimentar, além de várias aldeias isoladas onde podem saquear, raptar e roubar e é uma zona também de garimpo ilegal, que pode ser usado para financiar a guerrilha", acrescentou.

Por outro lado, prosseguiu João Feijó, a internacionalização da guerra, com a entrada de tropas estrangeiras para apoiar Moçambique, abre um novo argumento para que os rebeldes procurem apoios, sob pretexto de se estar perante uma "cruzada" regional "contra os islâmicos".

"A partir do momento em que entram aqui tropas estrangeiras estão criadas as condições para que eles alimentem uma propaganda segundo a qual isto é uma cruzada contra os islâmicos", frisou.

Face aos sinais de alastramento do conflito promovido por rebeldes no norte, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, prometeu, na quinta-feira, "a resposta que merecem", admitindo que as novas incursões no Niassa são promovidas por insurgentes que fogem das ofensivas das forças governamentais em Cabo Delgado. 

"Alguns [insurgentes] estão a fugir [de Cabo Delgado] para Niassa por muitas razões, uma delas é a comida. Eles estão com problemas sérios de alimentação. Mas garanto que eles vão ter a resposta que merecem", disse à comunicação social estatal Filipe Nyusi, momentos após um encontro com forças governamentais em Cabo Delgado.

As incursões rebeldes no Norte de Moçambique começaram em outubro de 2017 em Cabo Delgado e, desde o período, foram responsáveis pela morte de mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, de acordo com as autoridades moçambicanas.

Desde julho, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda, a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), permitiu aumentar a segurança, recuperando várias zonas onde havia presença de rebeldes, nomeadamente a vila de Mocímboa da Praia, que estava ocupada desde agosto de 2020.

Niassa João Feijó Norte de Moçambique política questões sociais ajuda externa
Ver comentários