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Madeirense repatriado da Guiné-Bissau critica atuação das autoridades portuguesas

Biólogo Paulo Oliveira foi repatriado num voo da TAP, em 26 de março, após nove dias de espera.
Lusa 30 de Março de 2020 às 20:45
Avião da TAP
Avião da TAP FOTO: Reuters
O biólogo madeirense Paulo Oliveira foi repatriado da Guiné-Bissau, num voo da TAP, em 26 de março, após nove dias de espera, e chegou à região autónoma com muitas queixas e alertas sobre a atuação das autoridades portuguesas.

"O que estou a querer denunciar é que, de facto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros esteve péssimo. Uma pessoa sente-se totalmente abandonada", disse à agência Lusa, ao telefone, a partir da Quinta do Lorde, complexo turístico na freguesia do Caniçal, para onde são encaminhados passageiros que chegam à Madeira, a fim de cumprirem a quarentena obrigatória imposta pelo Governo Regional.

A medida foi adotada no âmbito do plano de contenção da pandemia provocada pelo novo coronavírus e entrou em vigor às 00:00 de 22 de março.

Paulo Oliveira estava de férias na Guiné-Bissau, com a companheira, desde o início de março, numa altura em que não fora ainda emitida qualquer recomendação das autoridades portuguesas para evitar viagens a África devido à pandemia da covid-19.

"Estávamos nas Bijagós, ilhas praticamente inacessíveis, quando os aeroportos [dos países] à volta começam todos a fechar", contou, explicando em 17 de março decidiram regressar a Bissau, mas não chegaram a tempo do último voo.

Recorreram à embaixada de Portugal, onde foram recebidos "nem bem, nem mal" e onde lhes foi pedido para "ter calma".

O biólogo vincou que estava seguro de que "mais cedo ou mais tarde alguma coisa ia acontecer", mas não poupa críticas ao desempenho das autoridades portuguesas.

"Ligámos para a Linha Covid-19, criada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ninguém atendia. Ligámos para a emergência consular, ninguém atendia. Depois, quando atenderam, foram extremamente malcriadas e rudes e mandaram-nos outra vez para a Linha Covid-19. Não nos atendiam. Mandamos email e só recebemos a resposta vários dias depois, uma resposta tipo automática", relatou.

Durante este período, segundo disse, a embaixada portuguesa em Bissau fechou portas e deixou de atender os telefones.

"O processo começou a evoluir de forma positiva quando o ministro [dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva] anunciou que ia começar a fazer o repatriamento dos portugueses", explicou Paulo Oliveira, acrescentando: "Mas foi uma operação muito mal montada, muita gente a querer sair, incapacidade logística de apoiar as pessoas, incerteza até ao último momento".

O biólogo madeirense vincou o "rombo financeiro" resultante do período de espera, pois foram "bastantes mais dias de hotel", alertando para a eventualidade de haver outros portugueses em dificuldades por esse motivo noutros pontos do mundo.

O voo de repatriamento, operado pela TAP, aterrou na madrugada de 26 de março, em Lisboa e, durante a manhã, viajou para a Madeira, também num avião da companhia portuguesa.

"Era um voo de repatriamento [Bissau-Lisboa], que acabou por ser um voo comercial", disse Paulo Oliveira.

O biólogo frisou: "Vinham bastantes portugueses a bordo. Turistas, penso que no máximo seriam uns 10. O resto eram pessoas de ONG [organizações não-governamentais], pessoas residentes que quiseram sair, estrangeiros, muitos guineenses. Acabou por ser um voo comercial".

Paulo Oliveira considerou como "medida fantástica" a quarentena decretada pelo Governo Regional da Madeira, com controlo à chegada ao aeroporto, vincando que na capital esse controlo é menos rigoroso.

"Aqui somos identificados pela polícia, somos encaminhados para um autocarro que nos traz para aqui [Quinta do Lorde], onde somos novamente identificados e distribuídos pelos quartos", explicou, indicando que "o processo é um pouco lento, mas feito com muita dignidade".

O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) esclareceu, em resposta escrita enviada à Lusa, que em 28 de fevereiro foi publicado o um alerta nos "Conselhos aos Viajantes" para a Guiné-Bissau, devido à instabilidade política, em que desaconselhava as viagens não essenciais ao país.

"Da situação descrita, é possível concluir que o cidadão nacional em causa decidiu ir de férias para as ilhas Bijagós, na Guiné-Bissau, no início de março, desrespeitando em absoluto as recomendações do Governo português", referiu a nota.

O MNE sublinhou, também, que em 11 de março a Organização Mundial de Saúde declarou a covid-19 como pandemia.

"O cidadão nacional só terá finalmente decidido suspender as suas férias no dia 17 de março, quando as autoridades guineenses decretaram o encerramento do espaço aéreo", indicou a nota, vincando que "uma operação de repatriamento com o espaço aéreo do país de destino encerrado é uma operação demorada".

"Não obstante, o Governo português conseguiu obter autorizações excecionais para que a TAP pudesse operar e repatriar os cidadãos portugueses que se encontravam no país, como terá sucedido com o cidadão nacional em causa", acrescentou a nota.

As autoridades da Guiné-Bissau anunciaram hoje ter subido de dois para oito o número de infetados pelo novo coronavírus e que 10 casos suspeitos ainda continuam em análise no Laboratório Nacional de Saúde Pública, em Bissau.

Na Madeira, o Instituto de Administração da Saúde elevou para 40 o número de infeções por covid-19 no arquipélago.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 727 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram perto de 35 mil.

Em Portugal, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 140 mortes, e 6.408 casos de infeções confirmadas.

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