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Processo contra Isabel dos Santos pode ser 'fait-divers' para esconder miséria em Angola

Foi decretado o arresto de bens da empresária, do marido e de um colaborador, no valor de 1,1 mil milhões de dólares.
Lusa 16 de Janeiro de 2020 às 16:50
Isabel dos Santos
Isabel dos Santos
A empresária angolana Isabel dos Santos
Isabel dos Santos
Isabel dos Santos
A empresária angolana Isabel dos Santos
Isabel dos Santos
Isabel dos Santos
A empresária angolana Isabel dos Santos
O economista angolano Manuel Alves da Rocha considerou esta quinta-feira que o processo de arresto de bens da empresária Isabel dos Santos pode ser uma distração, face à "situação de miséria" que Angola está a atravessar.

"Não sei até que ponto é que este processo de arresto dos bens de Isabel dos Santos não teve a intenção de, de certa maneira, ser um 'fait-divers' relativamente à grande crise económica e social que Angola vive", disse o diretor do Centro de Estudos e Investigação Científica, da Universidade Católica de Luanda, em declarações aos jornalistas, em Lisboa.

Questionado sobre o que está em causa no arresto de bens da empresária, do marido e de um seu colaborador, no valor de 1,1 mil milhões de dólares, Alves da Rocha disse: "Ninguém ainda conseguiu dizer o valor dos bens que saiu do país ou que foi retirado ilegalmente ao Estado, nem o Banco Nacional de Angola, nem o próprio Governo".

Ao falar-se de 1.100 milhões de dólares (987 milhões de euros), "que foi o valor que foi atribuído sem se perceber como, evidentemente que isso é uma gota de água nas necessidades de financiamento da economia angolana e nas necessidades de investimento na diversificação", defendeu o professor universitário.

"O arresto de bens na luta contra a corrupção é uma maneira relativamente enviesada, já me perguntei se haverá outras razões que levem o Presidente João Lourenço a focalizar-se na família, parental e política de José Eduardo dos Santos", afirmou o economista.

Instado a aprofundar a ideia, Alves da Rocha acrescentou: "Há razões políticas, ele pretende posicionar-se dentro do partido com força e já há análises feitas que dão conta de discrepância sobre o poder que João Lourenço tem no Governo e o poder que tem no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder), que são poderes desequilibrados, mas haverá seguramente outras razões, não estritamente políticas, mas pessoais, sobre situações que aconteceram entre os dois".

Comentando a atual situação política em Angola, Alves da Rocha defendeu que "o Presidente João Lourenço, de alguma maneira, tem vindo a perder algum apoio popular porque representou a mudança, uma nova organização da economia e da sociedade, só que os resultados não estão a aparecer".

"As vozes de alguns ministros que dizem que as coisas não acontecem da noite para o dia, e que as reformas precisam de tempo, é verdade, mas será que as reformas vão no sentido correto?", questionou o académico.

Para Alves da Rocha, "o acordo com o Fundo Monetário Internacional não é o acordo de que Angola necessita para resolver os problemas económicos, promover a diversificação, atrair investimento estrangeiro e simultaneamente aliviar as tremendas carências sociais na saúde, na educação, nos rendimentos, no emprego, que a população tem".

Angola, lembrou, está em recessão desde 2015, "e isso tem reflexos profundos sobre a situação social do país e não vemos, para os próximos tempos, a possibilidade de se alterar este percurso decrescente da economia nacional, não só pela evolução do petróleo, mas sobretudo pela falta de reformas que Angola devia ter encetado com dinamismo e persistência" ainda durante a governação de José Eduardo dos Santos.

O anterior Presidente, acusou, "promoveu o facilitismo, promoveu a acumulação de riqueza e agora estamos aflitos sobre a maneira de reverter isto, e não é com o FMI que Angola reencontra o caminho de crescimento económico sustentável".

Além de Isabel do Santos, que foi alvo de um arresto provisório, também José Filomeno 'Zenu' dos Santos está a braços com a justiça, respondendo em tribunal por uma alegada transferência irregular de 500 milhões de dólares enquanto era presidente do Fundo Soberano de Angola.

Isabel dos Santos tem-se de queixado nas últimas semanas de estar a ser alvo de perseguição, uma queixa partilhada com outra das filhas do antigo presidente, 'Tchizé' dos Santos, que viu recentemente o MPLA suspender o seu mandato de deputada, uma decisão que foi entretanto impugnada junto do Tribunal Constitucional.

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