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Bispos e pastores angolanos da IURD confiantes nas autoridades e justiça do país

Em causa estão divergências entre bispos e pastores angolanos e brasileiros desde o final do ano passado.
Lusa 13 de Julho de 2020 às 17:59
Justiça
Justiça FOTO: Getty Images
O porta-voz dos bispos angolanos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Silva Matias, manifestou-se hoje confiante nas autoridades e justiça de Angola, desvalorizando as tentativas de recuperação do controlo dos templos pela ala brasileira.

Em causa estão divergências entre bispos e pastores angolanos e brasileiros da IURD desde o final do ano passado, que se agudizaram a partir de 22 de junho, com os nacionais de Angola a tomarem o controlo de grande parte das igrejas no país.

Silva Matias disse, em declarações à agência Lusa, que atualmente estão sob controlo dos religiosos angolanos 85% das igrejas em todo o país e em Luanda, capital de Angola, 75% do total, estando ainda os brasileiros presentes em 25% dos templos.

Sobre as manifestações realizadas no Brasil devido à situação da igreja em Angola, Silva Matias desvalorizou-as, afirmando que o bispo Edir Macedo, fundador da IURD, está a usar de toda a sua influência nos meios políticos e de comunicação social para "tentar intimidar o Governo (angolano)".

"Nós estamos calmos, temos a certeza que somos um Estado soberano e o nosso Presidente (da República) prima por salvaguardar primeiro o interesse dos nacionais. O Serviço de Investigação e a Procuradoria-Geral da República, os tribunais estão a fazer o seu serviço e as evidências estão em posse da justiça", afirmou.

Silva Matias reforçou que os bispos angolanos acreditam no trabalho das autoridades, "e essas coisas não vão intimidar, se há crimes os culpados têm que ser responsabilizados".

O porta-voz dos bispos e pastores angolanos da ala reformadora da IURD referiu que continuam a registar-se provocações da outra ala, usando pessoas desinformadas da igreja para os ataques.

"Cidadãos angolanos, como membros que não têm conhecimento do que acontece no sistema interno da igreja, estão a levar a eles informações completamente distorcidas, que não têm nada a ver com aquilo que são os crimes apresentados a público e órgãos de justiça", explicou.

Questionado se foram registados mais atos de violência como no início, Silva Matias respondeu que não, realçando que têm estado a controlar a situação, sempre em favor do diálogo.

"É certo que algumas pessoas que eles têm estado a incentivar para criar conflito - uma vez que eles não podem dar a cara - têm-se mostrado com indícios de querer promover violência, mas temos mantido os nossos ânimos acalmados", frisou.

Hoje, o Ministério das Relações Exteriores de Angola anunciou a realização de um encontro entre o chefe da diplomacia angolana, Téte António, e o embaixador do Brasil no país africano, Paulino Franco de Carvalho, fechado à imprensa.

Em junho, bispos e pastores angolanos tomaram a direção da IURD, por não concordarem com a gestão brasileira, a quem acusam da prática de evasão de divisas, branqueamento de capitais e racismo, bem como de vasectomia (castração química) forçada.

Em dezembro de 2019, a Procuradoria-Geral da República angolana instaurou dois processos-crime contra a IURD, tendo como base as denúncias feitas por pelo menos 300 pastores angolanos, subscritores do documento.

A IURD, fundada por Edir Macedo em 1977, tem acumulado polémicas um pouco por todo o mundo, incluindo o envolvimento numa alegada rede ilegal de adoções em Portugal, e noutros países lusófonos, como São Tomé e Príncipe, onde os fiéis se revoltaram contra a detenção de um pastor são-tomense num protesto onde foi morto um jovem.

A organização religiosa já esteve na mira da justiça de vários países, além do Brasil, onde Edir Macedo, que construiu um verdadeiro império empresarial e chegou a ser considerado um dos pastores evangélicos mais ricos do país, foi preso, em 1992, sob acusações de charlatanismo e estelionato (burla), que foram mais tarde anuladas.

Em Angola, a IURD, em 2012, já enfrentou um processo na justiça, no qual seis líderes e responsáveis da igreja foram acusados de 10 crimes de homicídio voluntário, pela morte de 10 pessoas, na denominada vigília "Dia do Fim", em Luanda.

O ato, que resultou ainda no ferimento de mais de 100 fiéis, levou dezenas de milhares de pessoas a concentrarem-se no interior e exterior do Estádio da Cidadela, em Luanda, ultrapassando largamente a lotação do recinto.

Face ao caso, a IURD viu a sua atividade suspensa por 60 dias, e em 2015, o Tribunal Provincial de Luanda absolveu os arguidos por não ter elementos suficientes para afirmar com juízo de certeza que os mesmos terão cometido os crimes dos quais foram acusados e pronunciados.

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