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Correio da Manhã

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Bolsonaro diz que não tem obrigação de ajudar hospitais onde doentes com Covid-19 morrem por falta de oxigénio

Explosão de casos fez o consumo de oxigénio hospitalar no estado quintuplicar.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 31 de Janeiro de 2021 às 04:42
Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro FOTO: Direitos Reservados

Numa nova exibição do desprezo que tem pela vida, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, afirmou este sábado não ter obrigação de ajudar os hospitais de Manaus e de outras cidades do estado do Amazonas onde pacientes estão a morrer desde o início do ano por não terem oxigénio. A explosão de casos de Covid-19 fez o consumo de oxigénio hospitalar no estado quintuplicar, as fábricas não conseguem garantir o necessário e a ajuda do Ministério da Saúde tem sido lenta e claramente insuficiente, mas o presidente elogia o ministro.

"Não é competência nossa nem atribuição levar o oxigénio para lá, demos os meios", declarou Jair Bolsonaro, aludindo às verbas federais que o Amazonas, tal como todos os outros estados, recebe, esquecendo-se de dizer que aquele estado amazónico foi um dos que menos ajuda teve do governo central para o combate ao coronavírus, acrescentando:"Ele (o general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde), trabalha de domingo a domingo, vira as noites, duvido que com outra pessoa teria uma resposta melhor do que a que ele está dando. Não houve omissão, ele está a fazer um trabalho extraordinário."

O surgimento de uma nova variante do coronavírus em Manaus, a capital do estado, fez explodir o número de casos de Covid-19 na região, e hoje o Amazonas tem o dobro dos internamentos que teve em abril e maio do ano passado, os dois piores meses da pandemia até então, pessoas morrem também à porta de hospitais porque as unidades sobrelotadas não deixam entrar mais ninguém, e sepulturas verticais estão a ser abertas a um ritmo alucinado nos cemitérios devido ao enorme número de mortes. O consumo de oxigénio nos hospitais disparou de 15 mil metros cúbicos diários para mais de 80 mil, enquanto as três fábricas da região conseguem produzir apenas 28 mil metros cúbicos a cada dia.

Quando o alerta foi dado, o Ministério da Saúde enviou para o Amazonas não os cilindros de oxigénio que poderiam salvar vidas mas sim 120 mil comprimidos de Hidroxicloroquina. O medicamento não tem qualquer efeito curativo sobre o coronavírus, mas Jair Bolsonaro, mesmo sem ser médico, determinou o seu uso em massa por, segundo o presidente, curar totalmente a Covid-19.

Perante a indignação do país inteiro, o ministro da Saúde criou finalmente uma espécie de ponte aérea com Manaus usando aviões militares, mas, nos dias em que a quantidade é maior, envia para o Amazonas 20 mil metros cúbicos de oxigénio, quando, na verdade, usando os meios que possui, deveria ter montado uma operação de guerra e garantido o abastecimento. Outros estados e até a Venezuela, apesar dos ataques de Bolsonaro, têm enviado oxigénio ao Amazonas, mas ainda assim é insuficiente, pois o número de novos casos não pára de crescer.

Ao contrário dos elogios que recebe de Jair Bolsonaro, Eduardo Pazuello enfrenta críticas de todos os lados pelo gigantesco fracasso da sua atuação na resposta à Covid-19, e pode até enfrentar problemas na justiça. O Supremo Tribunal Federal instaurou no final desta semana uma investigação contra Pazuello por omissão e inúmeros crimes contra a saúde pública, responsabilizando-o pelo avanço da pandemia e as mais de 223 mil vidas perdidas no Brasil devido à Covid-19.
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