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Correio da Manhã

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Bolsonaro mostra-se 'pacífico' em público mas mantém ataques de fúria nos bastidores

Juiz do Supremo Tribunal Federal pediu para eliminar perfis de aliados de Bolsonaro das redes sociais. Medida não agradou ao presidente brasileiro.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 26 de Julho de 2020 às 17:03

Surpreendendo o Brasil e, principalmente, os adversários, ao adotar em público nas últimas três semanas um estilo inesperadamente moderado e conciliador já denominado na imprensa "paz e amor", o presidente Jair Bolsonaro parece no entanto não ter levado a sério essa sua nova postura nos bastidores. Pessoas próximas ao presidente que forneceram informações à imprensa sob anonimato garantem que os ataques de fúria do governante, o seu estilo mais conhecido, continuam em privado e até aumentaram, trazendo permanentemente apavorados os que o cercam.

Um dos mais violentos terá ocorrido quarta-feira, após o juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ter ordenado ao Twitter e ao Facebook que tirassem do ar perfis de aliados de Bolsonaro acusados de disseminação em massa de notícias falsas (fake news) e de ameaças à vida de magistrados. Assessores contaram a jornalistas da sua confiança que Jair Bolsonaro teve nesse dia um dos seus mais assustadores ataques de fúria, ficou descontrolado por horas e sobraram palavrões do mais baixo calão, gritos e ameaças até para os fiéis auxiliares que o cercaram nas duas últimas semanas no isolamento no Palácio da Alvorada, residência oficial em Brasília, provocado pela descoberta dia 7 passado de que estava com Covid-19.

Em público, Bolsonaro manteve a compostura e anunciou, outro facto bastante estranho pois ele não é advogado, ter instaurado no próprio STF uma ação solicitando a anulação da decisão de Moraes em nome da liberdade de expressão e, diplomaticamente, acrescentou que acreditava no bom senso e no patriotismo dos magistrados, a quem em outras oportunidades atacou violentamente e chegou a ameaçar com uma intervenção militar e o encerramento daquele tribunal superior. Mas, no isolamento, garantem essas fontes, de onde saiu este sábado após um novo teste de coronavírus ter dado finalmente negativo, Bolsonaro manteve-se o tempo inteiro alterado.

Para os que o conhecem mais de perto, o aumento dos ataques de fúria do presidente brasileiro, que fez da intolerância e agressividade marcas do seu período de 28 anos como deputado e manteve o estilo mesmo depois de tomar posse como chefe de Estado em 1 de Janeiro de 2019, está diretamente relacionado com a nova postura moderada que tem sido obrigado a manter em público por pressão da forte ala militar que o cerca no governo e para evitar o início da tramitação de um dos mais de 40 pedidos de afastamento do cargo que esperam análise no Congresso. Sem poder reagir da forma que sabe e gostaria aos "inimigos", e para Bolsonaro todos que não concordam com ele são inimigos unidos numa conspiração para o derrubar, sem poder explodir em público e disparar ofensas e ameaças até contra o STF que fazem o delírio dos seus seguidores fanáticos, Jair Bolsonaro, asseveram pessoas que o cercam, tem-se sentido sufocado, verdadeiramente manietado e a sua fúria, que não pode deixar transparecer em público, tem sido canalizada para quem convive com ele na discrição do palácio.
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