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Dinheiro sujo russo infiltra mercado financeiro e imobiliário do Reino Unido

Declarou Tom Tugendhat, presidente da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros.
Lusa 29 de Janeiro de 2022 às 07:12
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Dinheiro FOTO: Getty Images
Quando os ocidentais ameaçam os dirigentes russos com sanções inéditas se invadirem a Ucrânia, organizações não governamentais (ONG) e um parlamentar britânico alertaram para o dinheiro russo com origem criminosa, que infiltra o mercado financeiro e imobiliário britânico.

"Enquanto Moscovo mostra os seus músculos na Ucrânia, o dinheiro russo continua a envenenar as nossas margens", declarou Tom Tugendhat, presidente da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, em artigo publicado na sexta-feira pelo CityAm, um dos títulos de referência da indústria financeira britânica.

"Não são apenas os tanques que representam uma ameaça, mas (também) o dinheiro líquido", acrescentou o eleito conservador.

Estimou que os fundos colocados em "contas e propriedades em Londres são utilizados para minar a segurança do Reino Unido", citando em particular a morte do ex-espião russo Alexandre Litvinenko, envenenado com polónio, em 2006, em Londres, depois de ter denunciado a corrupção e as ligações presumidas dos serviços de informações russos com o crime organizado.

Depois de anos de tensões elevadas com Moscovo, Londres assumiu uma posição muito ofensiva na crise focada na Ucrânia, acusando Moscovo de querer conquistar Kiev e aí instalar um governo pró-russo e enviando armas anticarro para o exército ucraniano.

Mas as autoridades britânicas são também acusadas de fechar os olhos sobre a origem de uma parte do dinheiro russo que aflui a Londres, que por vezes é designada como 'Londongrado', suspeito de ser oriundo de atividades criminosas e ser utilizado para comprar influência.

H+a oligarcas russos com importantes ativos e propriedades nos principais bairros londrinos.

Em declarações na BBC, Tom Tugendhat julgou que o Reino Unido tinha uma responsabilidade particular na crise atual, por causa do papel de Londres na lavagem do dinheiro sujo internacional.

A partir de Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, disse à BCC que "muito do dinheiro que causa infelizmente instabilidade, aqui na Bósnia, na Ucrânia e, bem entendido, na Rússia, circula nos nossos mercados em Londres".

Diplomatas dos EUA, citados na sexta-feira pelo diário britânico The Times, consideraram que a inação de Londres face ao fluxo de dinheiro russo na economia britânica vai reduzir a eficácia de potenciais sanções financeiras contra o presidente russo, Vladimir Putin, mencionadas por Washington.

A ONG Transparency International estima em 1,5 mil milhões de libras (1,8 mil milhões de euros) o valor dos bens imobiliários possuídos no Reino Unido pelos russos acusados de corrupção ou ligados ao Kremlin.

Daquele montante, mil milhões de libras é detido por sociedades baseadas em paraísos fiscais dependentes da Coroa britânica, como Ilhas Virgens Britânicas e a Ilha de Man, segundo a ONG.

"Não é segredo que a Grã-Bretanha representa uma 'máquina de lavar' ('laudromat') para o dinheiro sujo e a reputação dos russos e originários de outros países. Isto tem impacto não apenas nos cidadãos dos países com regimes corruptos, mas coloca ameaças à segurança do Reino Unido", comentou Duncan Hames, diretor de políticas na Transparency International UK.

"O governo deveria fazer avançar as reformas esperadas há muito para impedir os criminosos e os corruptos de colocar os seus ganhos ilícitos em propriedade topo de gama aqui", no Reino Unido, acrescentou em declaração recebida pela AFP na sexta-feira, em que apelou aos dirigentes londrinos que congelassem os ativos em causa.

Em 2018, um relatório da comissão britânica dos Negócios Estrangeiros, intitulado "o ouro de Moscovo", publicado em pleno escândalo Skripal (um ex-agente duplo envenenado em Inglaterra, o que Londres atribuiu a Moscovo), concluía que a melhor maneira de contrariar uma agressão russa seria impedir o Kremlin de lavar dinheiro sujo no Reino Unido e nos seus territórios ultramarinos.

Neste documento, o ativista anticorrupção Roman Borisovich descrevia os oligarcas russos como pertencentes a "uma mesma classe" de pessoas com acesso ao Kremlin.

"Mesmo que possam parecer diferentes -- um possui um clube de futebol, outro deu dinheiro para uma escola em Oxford, um outro esteve detido nas prisões comunistas, um outro ainda era funcionário, ... - (...) ganharam dinheiro graças a uma relação com o governo russo. (...) Este laço força-os a fazer tudo o que Putin quiser", detalhou então.

A comissão dos Negócios Estrangeiros tenciona lançar rapidamente um inquérito sobre a regulamentação dos fluxos de dinheiro no mundo, disse na sexta-feira à AFP um dos seus porta-vozes.

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