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"Era das pandemias": Seres humanos precisam de encarar animais de forma diferente para evitarem novos surtos

"Precisamos de pensar nas pandemias da mesma maneira que pensamos sobre as alterações climáticas", alertam os cientistas.
Marta Quaresma Ferreira(martaferreira@cmjornal.pt) 17 de Abril de 2020 às 16:22
Coronavírus no mundo
Coronavírus no mundo FOTO: Getty Images
A próxima pandemia pode ser evitada se os animais passarem a ser encarados como "parceiros", mantendo o seu habitat natural preservado.

Segundo vários especialistas, as epidemias e surtos não são uma novidade para as sociedades. Tal como no caso do coronavírus que, segundo estudos terá começado num morcego ou num pangolim, num mercado chinês, outros vírus alojaram-se nos animais, passando depois para os seres humanos.

Os mercados húmidos da China são um exemplo de como os animais selvagens, portadores de vírus, continuam a ser comercializados e consumidos por parte da população. É através desse consumo que o ser humano acaba por ser igualmente um hospedeiro do vírus, transportando-o consigo para qualquer lugar, contribuindo assim para a sua disseminação. Os milhares de milhões de euros provenientes do comércio de animais selvagens continuam a ser um entrave à tomada de medidas.

Segundo a publicação South China Morning Post, o facto de existir um número tão grande de vírus entre os animais não é uma surpresa para os cientistas. O grande problema está na evolução do comportamento humano, tanto social como económico, que está a prejudicar cada vez mais os habitats dos animais.

De acordo com a mesma publicação, os especialistas acreditam que a desflorestação e a exploração excessiva das terras agrícolas para produzir alimentos e outras mercadorias pode estar a contribuir para estas novas doenças e respetiva propagação. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os três principais vírus assassinos do século XXI são, até ao momento, a Sars-CoV, a Mers-CoV e a Sars-CoV-2.

"São as nossas atividades que estão a mudar as coisas", referiu o epidemiologista veterinário Dirk Pfeiffer, que sublinha o perigoso desequilibro criado pelo ser humano. "Estamos a aproximarmo-nos da floresta e a invadir o habitat de animais selvagens e patogénico que não conhecíamos antes", lamenta. 

Segundo o especialista, o comércio internacional e as viagens contribuíram igualmente para a proliferação mais rápida da doença.

O ecologista de doenças Peter Daszak designa até esta nova fase como a "era da pandemia", onde as mercadorias, as pessoas e os animais circulam, o contacto com a vida selvagem aumenta e, com ela, o vírus que pode carregar. E compara as pandemias às alterações climáticas.

"Precisamos de pensar nas pandemias da mesma maneira que pensamos sobre as alterações climáticas - é uma ameaça existencial para nós, mas podemos realmente controlá-la porque somos os motores", afirmou Daszak.

Uma equipa de epidemiologistas, onde estão incluídos Daszak e George Gao, diretor do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, e Dennis Carroll, ex-diretor da unidade de influências pandémicas e ameaças emergentes da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, usaram modelos matemáticos que pode revelaram a existência de até 1,7 milhão de vírus desconhecidos em animais. O mesmo modelo estimou que mais de meio milhão poderia ter o potencial de causar doenças humanas.

Para resolver este problema, os especialistas afirmam que são necessários mais investimentos nos serviços públicos de saúde e no desenvolvimento de meios para monitorizar febres e pneumonias repentinas.

A iniciativa One Health, que reúne médicos e veterinários no reconhecimento das ligações entre as espécies, os seres humanos e o meio ambiente em epidemia, tem ganho cada vez mais notoriedade , principalmente depois da gripe das aves, em meados dos anos 2000.

De acordo com o South China Morning Post, que cita vários cientistas e investigadores que estudam os vírus em animais, é fundamental compreender quais os vírus animais que estão a "saltar" para os seres humanos. Esta pode ser uma linha inicial de defesa crucial para impedir que esses mesmos vírus se tornem pandémicos, como foi o caso da Covid-19.

"Pode muito bem acontecer que doenças semelhantes ao Covid-19 se tenham vindo a espalhar entre os seres humanos há vários anos", admitiu Sam Scarpino, professor assistente no Network Science Institute da Northeastern University. O docente dirige um laboratório sobre epidemias emergentes que trabalha com agências de saúde pública no âmbito da construção de modelos para prever surtos e respetiva disseminação.

À publicação asiática, Scarpino explica a extrema dificuldade em identificar o momento em que um patogénico potencialmente pandémico passa dos animais para os seres humanos.
"Nós focamo-nos em partes da China e do Sudeste Asiático no que toca ao surgimento de doenças, mas não conseguimos estar ao mesmo tempo noutras partes do mundo que possuem características ambientais e fatores de risco", lamenta.

"Depois desta situação, acho que nunca mais seremos os mesmos. Espero que uma das mudanças seja no investimento sustentado em vigilância [dos surtos e vírus]", conclui.
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