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"Espero nunca mais ver uma coisa daquelas": O terror do 11 de Setembro vivido e contado por dois portugueses

Para Isabelle Coelho-Marques era um dia de sol como tantos outros até que o coração da América foi sacudido pelos piores atentados terroristas da História. Luís Mendes foi chamado para liderar as equipas que removeram os escombros do World Trade Center, em Nova Iorque. Revelamos as suas histórias.
Marta Quaresma Ferreira(martaferreira@cmjornal.pt) 11 de Setembro de 2020 às 21:38
Para Isabelle Coelho-Marques era um dia de sol como tantos outros até que o coração da América foi sacudido pelos piores atentados terroristas da História. Luís Mendes foi chamado para liderar as equipas que removeram os escombros do World Trade Center, em Nova Iorque. Revelamos as suas histórias.
Por Marta Quaresma Ferreira(martaferreira@cmjornal.pt) 11 de Setembro de 2020 às 21:38

Isabelle Coelho-Marques trabalhava no Consulado Geral de Portugal em Nova Iorque naquela manhã de 11 de setembro. Luís Mendes é arquiteto e, no mesmo dia, foi chamado para liderar as equipas de remoção dos escombros das Torres Gémeas que dois aviões tomados por terroristas ligados à al-Queda destruíram em pouco menos de duas horas de sufoco.

"Quando acordei era o dia perfeito". Isabelle Coelho-Marques nunca esqueceu o que viu e viveu nas primeiras horas do dia 11 setembro de 2001 na cidade que nunca dorme.

Filha de pais portugueses, a luso-americana a viver nos EUA desde 1993, chegou a Manhattan e, como era habitual, apanhou um tradicional táxi amarelo vivo até ao Consulado Geral de Portugal, local onde trabalhava na altura, junto ao Rockfeller Center. O que parecia ser um dia normal, rapidamente se transformou num dos momentos mais marcantes da sua vida.

"O taxista começou a dizer um avião embateu contra uma das torres [do World Trade Centre]. O inglês não dava muito para compreender e pensei: o senhor deve ter percebido a notícia errada".

Mas ao chegar ao trabalho, veio a confirmação. Um avião tinha embatido contra uma das torres de um dos edifícios mais emblemáticos da cidade, a cerca de 8,8 quilómetros do local onde se encontrava.

"Pouco tempo depois, começaram a falar de uma segundo avião que bateu. Aí percebemos todos que aquilo seria um atentado. Nos altifalantes do edifício começaram a pedir para que se evacuasse o edifício, para sair, não usando os elevadores e para sairmos pelas escadas", descreve Isabelle, que percorreu as ruas em quadrícula de Nova Iorque enquanto a polícia circulava com megafones a pedir às pessoas que se dirigissem para as margens dos rios e desempedissem o centro da cidade.

"Começámos a caminhar, a ir para o West Side Highway, onde ficavam as Torres. Havia muita gente e as pessoas numa lentidão. Lembro-me a certa altura ouvir dizer que uma das Torres tinha caído, antes ainda de chegar à água, onde pudesse ter visibilidade", recordou Isabelle, que tinha o ex-marido a trabalhar também na cidade e perto do World Trade Center.

"Conseguiu falar comigo, disse-me para ir ao encontro do West Side Highway. Quando cheguei via-se fumo e um edifício já tinha caído. Eu acho que aí é que eu tive uma noção verdadeira do que é que estava a acontecer. Estava tudo paralisado, não havia comentários, não havia histerismo, as pessoas estavam a olhar, em estado de choque, e a chorar ao verem aquilo. Entretanto vi a segunda torre a cair", recorda com emoção Isabelle.

As pessoas estavam a olhar, em estado de choque, e a chorar ao verem aquilo

Isabelle Coelho-Marques

A tentativa de sair da cidade após o atentado foi um verdadeiro desafio para a luso-americana, que esteve em trânsito durante oito horas.

O choque espelhado nas caras e as dificuldades das equipas em chegar ao terreno são ainda algumas das memórias mais presentes. "Jamais esquecerei para o resto da minha vida os carros de passageiros comuns a saírem da cidade e o trajeto, até chegar a casa. Ambulâncias, carros do departamento de bombeiros... Tal como nós estávamos a ter dificuldades em sair da cidade, eles estavam a ter dificuldades a entrar. Era congestionamento em ambos os lados. Mas do nosso lado eramos nós a fugirmos e do lado oposto eram eles a ir ao encontro para poder socorrer".
Passados 19 anos, Isabelle Coelho-Marques ainda olha com nostalgia a zona do distrito financeiro de Manhattan. "Reerguemos das cinzas. Tenho saudades das Torres. Sempre que olho aquele lugar vem-me à mente as Torres."

No dia 11 de Setembro de 2001, enquanto Isabelle tentava sair da cidade, Luís Mendes, arquiteto português, foi chamado a ajudar. Chefiou as equipas de remoção dos destroços das Torres Gémeas e esteve envolvido no projeto de reconstrução de toda a zona envolvente ao Ground Zero, onde se localizavam as torres.

Luís estava no escritório quando recebeu o telefonema que o levaria para o centro do atentado com uma equipa de emergência. "Veio um carro da polícia buscar-me e quando chego a Manhattan vejo uma cena, pensava que estava num filme. Estava numa situação surreal, não podia acreditar. Na 1ª Avenida só via ondas de pessoas a correr, era uma coisa totalmente brutal. Espero nunca mais ver uma coisa daquelas".
Mas o que se seguiu era igualmente impressionante. "Quando chego ao Ground Zero pior ainda. Quando entro lá dentro e começo a olhar à minha volta... Eu andava em cima daquela embrulhada toda com sapatos de vela, tinha os pés todos encharcados. Não dava para acreditar que umas torres daquela magnitude tinham caído. Só via pó e ferro e não se viam cadeiras, não se viam mesas. Quando começo a subir para cima dos escombros começo a ver partes de corpos. Nunca tinha passado por uma coisa daquelas. Tinha visto prédios destruídos, já tinha visto muita coisa, mas nunca uma coisa dessas", recorda Luís, que trabalhou durante vários dias seguidos com poucas pausas e na esperança de encontrar sobreviventes.

Quando começo a subir para cima dos escombros começo a ver partes de corpos. Nunca tinha passado por uma coisa daquelas.

Luís Mendes
"Eu trabalhava 18 horas, queria dormir, mas era difícil", lembra Luís. "Adormecia um pouco à noite, mas passadas duas horas acordava e ia trabalhar. Às vezes passavam 24 horas. Aquilo era um programa de 24/7, nunca parava", recorda o arquiteto.

Nos dias seguintes, Isabelle, com o embaixador Cruz de Almeida, tiveram em mãos a missão de prestar assistência aos cidadãos portugueses em busca por familiares eventuais vítimas dos atentados.

"Abriu-se uma linha junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros para as pessoas que queriam saber dos familiares com quem já não tinham contacto há 10, 20 anos. Tivemos muitos pedidos de localização e identificação dos cidadãos portugueses que faleceram no ataque. Foi um trabalho bastante difícil e longo", admite. Morreram nas Torres Gémeas cinco portugueses.

19 anos depois, Isabelle considera que o ataque continua bem presente na memória dos nova-iorquinos.

"Ouve-se um barulho por cima dos edifícios, de um avião ou um helicóptero e as pessoas têm logo a tendência para olhar. O 11 de setembro foi, de facto, um marco para todos os nova-iorquinos. Houve muitas pessoas que optaram por sair, por procurar trabalhos fora da cidade. Eu continuo apaixonada pela cidade", admite.

"Às vezes ainda tenho dificuldade em identificar que aquilo aconteceu. Tenho medo sempre que atravesso os túneis de acesso à cidade. Só me sinto bem quando consigo sair. Não é por ter medo seja do que for, é mesmo porque qualquer dia pode ser de novo um alvo".

Para Luís, a participação no projecto foi essencial na sua carreira, mas apesar de ter sentido o peso da responsabilidade, dedicou-se rapidamente a outros trabalhos "muito complexos para que a cidade fosse "protegida", não só laboratórios, hospitais, mas uma tecnologia melhor, mais efetiva para ataques que se pudessem dar".

O português foi vice-presidente do 9/11 Memorial e elemento fundamental no projecto da reconstrução e transformação do espaço que guarda as histórias do primeiro atentado do século. Os ataques deixaram marcas, mas Luís prefere olhar o futuro. "O 11 de Setembro aos poucos e poucos foi passando. Não se pode estar sempre a pensar nesse. Todos se lembram, mas a cidade voltou à sua normalidade".

Fotos: Carlo Allegri/Reuters, Kai Pfaffenbach/Reuters, Mike Segar, Peter Morgan/Reuters, Ray Stubblebine/Reuters