Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
4

ETA muda refúgios para o sul de Portugal

As autoridades espanholas consideram haver fortes indícios de que a ETA está a transferir os seus refúgios no sul de França para o Algarve. Esta conclusão foi reforçada pela descoberta, quinta-feira, de um carro com 130 kg de explosivos junto a Ayamonte. Uma das razões apontadas para a mudança da base de operações prende-se com a eleição de Nicolas Sarkozy para a presidência francesa. Os terroristas bascos, afirma-se, temem o endurecimento das políticas em França e o consequente apertar do cerco aos seus membros aí refugiados.
24 de Junho de 2007 às 00:00
Agentes da polícia espanhola detiveram nacionalistas bascos próximos da ETA que se manifestavam no Parlamento de Guernica
Agentes da polícia espanhola detiveram nacionalistas bascos próximos da ETA que se manifestavam no Parlamento de Guernica FOTO: Vincent West, Reuters
A utilização de Portugal pela ETA vem de longe e levou a Europol a lançar vários alertas, um dos quais em 2003, para a constituição de estruturas estáveis de apoio no nosso país para alojar terroristas.
Uma das explicações agora ventiladas pela polícia espanhola para a escolha do Algarve por parte da ETA prende-se com facilidades logísticas e vantagens financeiras. De facto, no Algarve há dezenas de moradias a preços mais acessíveis do que em Espanha ou França, que gozam da vantagem adicional de serem, na sua maioria, de particulares, e não do Estado, e ainda de estarem frequentemente isoladas. Para além disso, o sul de Portugal está a um passo da Andaluzia, região que, segundo inúmeros indícios, está na mira dos terroristas para uma campanha de Verão contra a indústria turística espanhola. Recorde-se, a este respeito, que no carro encontrado em Ayamonte estavam mapas de estradas da Andaluzia e um plano das ruas de Sevilha.
Entretanto, as teorias sobre o carro de Ayamonte multiplicam-se. Ontem ventilava-se a possibilidade de os homens que partiram um vidro da carrinha Ford Focus para retirar sacos poderem ser apenas ladrões comuns e não membros da ETA a salvar material importante. Esta leitura baseia-se no facto de a A49, na qual foi deixado o automóvel, ter sido recentemente alvo de assaltos semelhantes ao de quinta-feira.
O facto de ter sido deixado para trás um computador que conteria informações importantes sobre os planos da organização basca reforçou esta hipótese. Mas as autoridades afirmaram ontem não constarem nos ficheiros informáticos do portátil referências a alvos concretos.
GOVERNO EXIGIU ‘MAIS’
O jornal basco ‘Gara’ afirmou ontem que, três meses após o atentado no aeroporto de Barajas, Madrid, a 30 de Dezembro de 2006, o governo do primeiro-ministro Rodríguez Zapatero não rompeu o diálogo e voltou a reunir com a ETA. Alegadamente o governo oferecia a reactivação do processo negocial a troco de garantias de que não haveria mais atentados. Zapatero recusou comentar estas notícias.
PJ DETEVE INFILTRADOS ESPANHÓIS
A 28 de Março de 2005 a Polícia Judiciária (PJ) do Porto, deteve dois agentes policias espanhóis que se encontravam infiltrados no comércio de explosivos, no seguimento de um processo que, actualmente, já tem 70 arguidos, entre os quais seis agentes da PSP. Nessa noite, agentes da Secção Regional de Combate ao Banditismo (SRCB), do Porto, numa acção simultânea na Póvoa do Lanhoso, Pedras Salgadas, Valpaços, Bragança, Guarda, Viseu e Baião, apreenderam 785 quilos de explosivos e detiveram 12 pessoas.
A detenção dos ‘infiltrados’ aconteceu entre a Póvoa do Lanhoso e Braga, numa altura em que estes faziam uma abordagem junto de responsáveis de uma fábrica de explosivos. Os agentes foram conduzidos aos calaboiços da PJ Porto, juntamente com dez portugueses, incluindo uma mulher de 83 anos, que vendia explosivos na sua mercearia em Baião. Após serem identificados os homens da ‘secreta’ foram libertados.
Ao que o CM conseguiu apurar na altura, a ‘inquietação’ das autoridades espanholas prendia-se com a facilidade com que se comercializam explosivos na região de Trás-os-Montes. A existência de um paiol ilegal com mais de 16 toneladas daquele material, “era um risco e os espanhóis não queriam que fossem parar a mãos perigosas”, disse fonte policial.
SAIBA MAIS
2 mortos foi o número de vítimas do atentado de 30 de Dezembro de 2006, no aeroporto de Barajas, Madrid. O ataque pôs fim à trégua declarada em Março do mesmo ano.
3 anos e sete meses foi o tempo durante o qual os atentados da ETA não fizeram vítimas mortais. A morte dos equatorianos Carlos Palate e Diego Estacio, no atentado de Barajas, pôs fim aos ataques sem sangue.
NORMALIZAÇÃO POLÍTICA
Os separatistas bascos consideram que só haverá normalidade quando for reconhecido o direito dos bascos a uma pátria independente.
‘ABERTZALE’
Designa hoje os partidos aliados da ETA. O termo foi inventado por Sabino Aranda, ideólogo do nacionalismo basco, para distinguir os ‘patriotas’ bascos dos de outras nações.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)