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Famílias deslocadas pela guerra em Moçambique queixam-se de falta de apoio

"Estamos há cinco meses sem receber comida e assim a minha família ainda vai morrer de fome" disse Momade Antumane, 45 anos, casado e pai de cinco filhos.
Lusa 17 de Janeiro de 2022 às 09:20
Jovens em Moçambique
Jovens em Moçambique FOTO: Lusa
Várias famílias de deslocados de guerra queixam-se de falta de apoio no norte de Moçambique, depois de terem sido encaminhados para zonas de reassentamento em Mecufi, Cabo Delgado, contaram à Lusa.

"Estamos há cinco meses sem receber comida e assim a minha família ainda vai morrer de fome" disse Momade Antumane, 45 anos, casado e pai de cinco filhos.

A família fugiu de Quissanga e é uma das 55 a viver em abrigos precários na zona de reassentamento de 3 de Fevereiro, distrito de Mecufi.

Prevê-se que aquele espaço a sul de Pemba receba um total de 200 famílias, mas os recursos são escassos.

Depois de sair de Quissanga com a família, Momade Antumane relata que procurou refúgio a sul, em Pemba, capital provincial, onde foi aconselhado a seguir viagem até Mecufi. 

Só que, segundo conta, na zona de reassentamento onde foi acolhido pouco mais existe além de casas construídas com a ajuda da Cáritas, organização humanitária católica.

Antumane diz que já tem a machamba (horta) lavrada, à semelhança do que outros fizeram, mas faltam sementes para lançar à terra e produzir alimentos.

"Machamba eu tenho, mas não temos milho para semear", lamentou.

Na mesma situação está Ali Afido, 38 anos, natural de Macomia, que procura recomeçar a vida em Natuco, outra zona de acolhimento do distrito de Mecufi, juntamente com outras 225 famílias.

"Não há água. Não há casa de banho. Estamos a sofrer. Também não há boa relação com os donos das machambas", senhorios das terras para lavrar, segundo relata.

Para encontrar comida que permita sobreviver, é preciso sair pelas redondezas e recorrer à ajuda de outras famílias, facto que dificulta a vida de todos.

"Se nós não sairmos daqui, não é possível comer", concluiu.

A situação foi constatada no local pelo diretor da Cáritas em Cabo Delgado, Manuel Nota, que na sexta-feira visitou os centros de reassentamento de Natuco e 3 de Fevereiro.

Naquelas zonas, coube à organização humanitária erguer 495 casas para minimizar o sofrimento da população afetada pela guerra, mas outras ajudas são necessárias.

As agências das Nações Unidas e outras organizações têm-se queixado de subfinanciamento da ajuda humanitária, o que tem levado ao racionamento do apoio alimentar, de forma a que possa chegar a mais deslocados.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas, aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

O conflito já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, de acordo com as autoridades moçambicanas.

Desde julho, uma ofensiva das tropas governamentais com apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu aumentar a segurança. 

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