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Governo de Maduro suspende voos da TAP em território venezuelano por 90 dias como "medida cautelar"

Anúncio foi feito pela Vice-presidente Executiva da Venezuela, Delcy Rodríguez.
Correio da Manhã e Lusa 17 de Fevereiro de 2020 às 18:26
Em 2014, a companhia aérea teve 46 milhões de euros de prejuízos
Em 2014, a companhia aérea teve 46 milhões de euros de prejuízos FOTO: José Sena Goulão/Lusa
O Governo de Maduro anunciou esta segunda-feira a suspensão dos voos da TAP em território venezuelano por 90 dias.

O anúncio foi feito pela Vice-presidente Executiva da Venezuela, Delcy Rodríguez, como uma "medida cautelar", após acusações de transporte de explosivos num voo oriundo de Lisboa para Caracas.
Na passada semana, o Governo venezuelano acusou a TAP de ter violado "padrões internacionais", por alegadamente ter permitido o transporte de explosivos e por ter ocultado a identidade do líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, num voo para Caracas.

Segundo o Governo venezuelano, Juan Marquez, tio de Guaidó que acompanhava o sobrinho nesse voo, transportou "lanternas de bolso táticas" que escondiam "substâncias químicas explosivas no compartimento da bateria".

Assim, as autoridades venezuelanas consideram que a TAP, nesse voo entre Lisboa e Caracas, violou normas de segurança internacionais, permitindo explosivos, e também ocultou a identidade do autoproclamado Presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, na lista de passageiros, embora a segurança aeroportuária não seja da responsabilidade das companhias transportadoras.

Horas antes do anúncio da suspensão de voos da TAP, o Governo da Venezuela já tinha ameaçado com uma bateria de sanções contra a companhia aérea portuguesa.

"Vamos avaliar, de acordo com o que aconteceu, três possíveis níveis de ação: uma série de multas que se costumam aplica a estes casos, bem como possíveis sanções e suspensões da companhia aérea TAP", disse Hipólito Abreu, durante uma conferência de imprensa, em Caracas.

O ministro dos Transportes explicou que o Instituto Nacional de Aviação Civil da Venezuela está a tratar do processo, tendo enviado um relatório com supostas irregularidades para a Organização Internacional de Aviação Civil (OIAC).

O presidente da Assembleia Constituinte da Venezuela, Diosdado Cabello, já tinha afirmado, na passada semana, que a TAP não estava inocente neste caso.

"Não são nenhuns santos", disse Cabelo, revelando imagens dos alegados explosivos transportados pelo tio de Juan Guaidó, durante uma emissão da estação televisiva estatal.

O Governo português já pediu um inquérito para averiguar a veracidade das acusações que envolvem a transportadora aérea portuguesa, dizendo não ter qualquer indício de irregularidades no voo que transportou Marquez e Guaidó.

Na sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, disse "não ver qualquer sentido" nas acusações do Governo venezuelano.

Vários países, incluindo os Estados Unidos, repudiaram, ao longo dos últimos dias, as acusações do Governo venezuelano à TAP.

Num comunicado divulgado na passada sexta-feira, o Governo norte-americano lembrou que a companhia aérea portuguesa TAP declarou publicamente que "é impossível viajar com explosivos", considerando falsas as acusações feitas pelo regime de Maduro contra o tio de Juan Guaidó.

"As acusações absurdas apresentadas exemplificam o crescente desespero de Maduro e dos seus corruptos colaboradores", disse a porta-voz da Casa Branca, Morgan Ortagus.

"A fabricação de factos para justificar detenções arbitrárias por razões políticas é um instrumento comum" do Governo de Maduro, acusou Ortagus, explicando as acusações contra a TAP com base no pretexto para deter o tio do líder da oposição na Venezuela.

A companhia aérea diz que "não compreende" a suspensão por 90 dias de voos para a Venezuela que lhe foi aplicada e garante que esta é uma "medida gravosa", que prejudica os passageiros.,

"A TAP não compreende as razões desta suspensão da operação para a Venezuela por 90 dias, uma vez que cumpre todos os requisitos legais e de segurança exigidos pelas autoridades de ambos os países", adiantou fonte oficial da empresa à Lusa.

A TAP é uma das poucas companhias aéreas que ainda voa para a Venezuela, depois de várias outras empresas internacionais terem abandonado essa rota, desde 2013, quando a crise económica venezuelana se intensificou.

A TAP continua a manter a Venezuela entre os seus 93 destinos, tendo em conta que este país concentra a segunda maior comunidade de portugueses na América Latina, logo a seguir ao Brasil, com cerca de 400 mil pessoas.

Conselheiro das comunidades portuguesas diz que suspensão é "decisão desagradável"
"É uma decisão desagradável, que afeta sobretudo a comunidade portuguesa", disse à Lusa Fernando Campos, conselheiro das comunidades portuguesas, que não se mostrou surpreendido, mas explicou que "não está de acordo" com a decisão, porque não lhe encontra fundamento.

Vários empresários, questionados pela Lusa sobre a suspensão dos voos, reagiram com "incredulidade", chegando mesmo alguns a pensar tratar-se "de um rumor das redes sociais".

No entanto, um empresário, à semelhança de outros portugueses, admitiu que "se os voos forem suspensos" vai complicar-se a situação para quem viaja para a Europa, onde há poucas linhas em comparação com as que operavam, há alguns anos, para Caracas.

Um agente de viagens explicou que "a comunidade portuguesa será a mais afetada", recomendando esperar para ver como "decorrem as negociações entre ambos os países".

"Há relações diplomáticas entre Portugal e a Venezuela, Portugal tem uma palavra a dizer sobre isto e até mesmo a Comunidade Europeia", frisou.

A TAP voa para Caracas duas vezes por semana, à terça e quarta-feira, e diversos agentes de viagem confirmaram à Lusa que, de momento, o voo previsto para terça-feira continua a aparecer no sistema.

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