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Mário Centeno, o 'Ronaldo das finanças' europeias que pediu para ser substituído

Ministro abdicou de concorrer a segundo mandato apesar do apoio que tinha das "bancadas" europeias, reforçado no atual contexto da profunda crise económica.
Lusa 11 de Junho de 2020 às 07:37
Mário Centeno, na apresentação da candidatura ao Eurogrupo
Mário Centeno
Mário Centeno preside ao Eurogrupo
Mário Centeno, na apresentação da candidatura ao Eurogrupo
Mário Centeno
Mário Centeno preside ao Eurogrupo
Mário Centeno, na apresentação da candidatura ao Eurogrupo
Mário Centeno
Mário Centeno preside ao Eurogrupo
O ministro Mário Centeno, o "Ronaldo do Ecofin", abdicou de concorrer a um segundo mandato como presidente do Eurogrupo, apesar do apoio que tinha das "bancadas" europeias, curiosamente reforçado no atual contexto da profunda crise económica do Grande Confinamento.

As reações na Europa ao anúncio de terça-feira de que Centeno deixa a pasta das Finanças no Governo português e, consequentemente, não se candidatará a um segundo mandato de dois anos e meio, demonstraram que o ministro português reunia todas as condições para ser reconduzido, mesmo que o seu mandato como presidente do Eurogrupo, iniciado em janeiro de 2018, não tenha sido glorioso em toda a linha.

Ao iniciar funções, Centeno elegeu como grande prioridade a reforma da zona euro e a concretização do aprofundamento da União Económica e Monetária e da União Bancária, mas abandona o cargo com a missão por completar, depois de muitos meses de negociações que não se traduziram nos progressos ambicionados.

Mário Centeno viu designadamente 'esfumar-se' aquela que foi uma das suas grandes 'bandeiras', o orçamento próprio da área do euro, o chamado instrumento para a convergência e competitividade -- que provocou de resto um 'choque' com o primeiro-ministro António Costa em plena cimeira do Euro em Bruxelas, em dezembro passado --, e que parece ter definitivamente perdido as poucas hipóteses que tinha de singrar, ao ser 'ignorado' nos planos de recuperação da economia europeia no pós-pandemia da covid-19.

Hoje à tarde, na penúltima reunião do Eurogrupo a que presidirá, Centeno lança a 'corrida' à sua sucessão, e em julho passará o 'testemunho' ao quarto -- ou quarta -- presidente da história do Eurogrupo, tornando-se o primeiro a não ter cumprido mais de um mandato, depois de Jean-Claude Juncker ter exercido o cargo entre 2005 e 2013 e de o holandês Jeroen Dijsselbloem ter cumprido dois mandatos, entre 2013 e 2018.

A eleição para a presidência do Eurogrupo, em dezembro de 2017, foi o corolário de uma ascensão meteórica de Centeno a nível de credibilidade e prestígio entre os seus homólogos na Europa, conquistada em dois anos.

Olhado à sua chegada a Bruxelas com desconfiança, em dezembro de 2015, por ser o titular da pasta das Finanças de um novo governo "geringonça", apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda -- na ótica comunitária, de perigosa extrema-esquerda, apostada em inverter a política de austeridade aplicada durante o programa de ajuda externa --, Centeno teve de conquistar a confiança de Bruxelas e dos parceiros europeus.

Aliás, nos primeiros meses em funções, o primeiro Governo de António Costa teve como principal missão em Bruxelas lutar contra anunciadas sanções a Portugal, devido ao défice excessivo, de 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB), registado no final de 2015, tendo a Comissão Europeia acabado por desistir das sanções em julho de 2016.

A partir daí, Centeno foi ganhando capital na Europa, que, olhando para o desempenho da economia portuguesa, deixou de recear novo 'descarrilamento' das contas públicas de Portugal ou uma nova Grécia. E 2017 seria em definitivo o ano da 'consagração' da economia portuguesa fora de portas.

Além do encerramento do Procedimento por Défice Excessivo sob o qual o país se encontrava desde 2009, e de as agências de notação financeira começarem a melhorar a sua avaliação da dívida soberana portuguesa, Portugal avançou com uma candidatura que meses antes era impensável, a do seu ministro das Finanças, entretanto 'batizado' -- em maio de 2017 -- pelo homólogo alemão Wolfgang Schäuble como "o Ronaldo do Ecofin", a presidente do fórum informal de ministros das Finanças da zona euro.

Em 04 de dezembro, Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo, à segunda volta, sucedendo a um dos 'falcões' de Bruxelas em termos de política económica, o holandês Dijsselbloem.

Em 2018, ao cabo de sensivelmente meio ano em funções, teve um dos momentos altos do seu mandato, ao anunciar o acordo "histórico" com as autoridades gregas -- no final de uma maratona negocial -- sobre a conclusão do terceiro programa de assistência à Grécia, consumada em agosto, e que, nas palavras do próprio, representou o "final dos últimos resquícios da crise do euro", já que pôs fim ao ciclo de resgates a países na zona euro no quadro da crise económica e financeira, entre os quais Portugal (2011-2014).

Enquanto na Europa se concentrava nas complexas negociações sobre o aprofundamento da União Económica e Monetária, a nível nacional garantiu que Portugal fosse prosseguindo a trajetória de correção do défice, e logrou a 'proeza' de garantir que o país registasse, em 2019, o primeiro excedente orçamental da história da democracia (0,2% do PIB).

A parte final do mandato de Centeno -- à imagem do sucedido com o seu trabalho no Governo -- acaba, todavia, por ficar marcada pela profunda crise provocada pela pandemia da covid-19, que, como afirmou recentemente o vice-presidente da Comissão Valdis Dombrovskis, deixou uma "cratera" na economia europeia idêntica à causa por um asteroide. O impacto exato só será determinado mais à frente, mas o certo é que o novo coronavírus é responsável pela maior contração económica da história da zona euro, quando esta estava finalmente reerguida.

No entanto, o seu trabalho nos últimos meses a nível da resposta europeia à crise da covid-19 acabou por ser curiosamente dos que mais elogios lhe mereceram por parte dos seus pares e das instituições europeias -- incluindo dos ministros das Finanças da Alemanha e da 'frugal' Holanda --, pelo que Mário Centeno deixará Bruxelas 'de cabeça erguida' e seguramente com a convicção de que, se não tivesse tomado a decisão de 'pendurar as chuteiras', não teria tido muitas dificuldades em continuar na posição de 'Ronaldo do Eurogrupo' por mais duas épocas e meia.

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