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Correio da Manhã

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Meninas obrigadas a passar mamas a ferro para "afastar atenção masculina"

Os praticantes defendem que a medida tradicional deve ser feita em meninas na fase da puberdade.
28 de Janeiro de 2019 às 19:53
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões
Prática de 'passar as mamas a ferro' é comum nos Camarões

A tradição é comum nos Camarões, na África Central, e tem como objetivo alegadamente proteger as mulheres de olhares masculinos e evitar crimes sexuais, consistindo na aplicação de pedras quentes sobre o peito de meninas em fase da puberdade para atrasar ou impedir a formação das mamas.

A prática africana está agora a espalhar-se pelo Reino Unido, segundo uma investigação do The Guardian, possivelmente através da diáspora camaronesa. O jornal revelou no passado sábado (dia 26 de janeiro) dezenas de casos recentes ocorridos no país.

"Passar o peito a ferro" (breast ironing, em inglês) trata-se de uma mutilação genital feminina (apesar de poder ser feita em rapazes, as mulheres são maioritariamente o alvo), semelhante à prática da remoção parcial ou total do clitóris e dos lábios vaginais que ainda acontecem em vários países africanos, em nome da "pureza sexual", e que afeta atualmente mais de 3,8 milhões de pré-adolescentes.

Segundo um estudo da universidade de Tufts, em Massachusetts, nos EUA, o costume começou por ser feito para massajar as mamas de mães lactantes de forma a estimular o leite e aliviar as dores. Com o passar dos anos, transformou-se numa prática de mutilação genital feminina, que a ONU considera um dos cinco crimes globais relacionados com violência de género menos reportados no mundo.

Como método, são usados ferros, espátulas ou pedras quentes, que são colocados em cima da mama em formação, o que quebra o tecido, de forma a achatá-la. Como sistema dito preventivo, é sobretudo feito em meninas a partir dos oito anos, uma vez por semana ou de duas em duas semanas, até ser conseguido o efeito desejado.

A tradição é normalmente passada entre as mães, avós e tias, e o processo costuma ser feito por familiares das vítimas, que pretendem desta forma proteger as meninas da atenção masculina e evitar assédios sexuais, violações e casamentos precoces.

"Peguei na pedra, aqueci-a e comecei a massajar [as mamas da minha filha]", descreveu uma das mães encontradas pelo The Guardian que utiliza este sistema e vive no Reino Unido. "A pedra estava um pouco quente. Quando comecei a massajar, a minha filha disse 'Mãe, está quente!".

A criança acabou por desenvolver hematomas e queimaduras em consequência do ato. A mãe foi interrogada pela polícia britânica, mas já foi libertada. Muitos dos familiares detidos pela polícia justificam-se com o facto de a prática ser "tradição".

Segundo a publicação, há relatos de casos de breast ironing em Londres, Yorkshire, Essex e West Midlands e que afetam jovens pré-adolescentes da diáspora de vários países africanos.

O costume – que tem sofrido um aumento considerável no Reino Unido – pode causar traumas físicos e psicológicas, cicatrizes, infeções, malformações, cancro da mama e incapacidade de amamentar no futuro.

Só no Reino Unido, Margaret Nyuydzewira, chefe do grupo da diáspora Came Women and Girls Development Organisation (Cawogido), considera que pelo menos mil mulheres e meninas no Reino Unido já foram submetidas à intervenção. Os números são estimados e não são suportados por nenhum estudo ou exercício formal de recolha de dados.

Leyla Hussein, uma psicoterapeuta britânica de origem somali, informou o The Guardian que já recebeu na sua clínica médica várias vítimas, tendo tratado de uma que ficou com o peito totalmente liso após a intervenção. "Nunca ninguém a questionou sobre isso. Nunca ninguém lhe fez um exame físico. Estamos no norte de Londres, isto acontece do outro lado da rua" .

"Eu trabalhei como enfermeira durante dez anos no Reino Unido e vi estes números crescerem", contou Jennifer Miraj, que trabalhou em hospitais em Essex, Glasgow, Birmingham e London. Até 2015, cruzou-se com casos de breast ironing de 15 adultos e oito meninas. "Cuidei de uma menina de dez anos que desenvolveu uma infeção, depois de passar anos a ter o seu peito passado a ferro", descreveu a enfermeira.

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