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Milionário português envolvido em esquema fraudulento de máscaras nos EUA

Foram enviados cerca de mil milhões de emails a promover a SafeMask.
Correio da Manhã 22 de Abril de 2020 às 15:23
Máscaras xxx
Máscaras xxx FOTO: Getty

Num momento em que as máscaras se tornaram num bem valioso em todos os países, há empresas que colocam produto em circulação e não olham à qualidade dos mesmos e aos preços praticados.

Foi o que aconteceu num esquema de venda fraudulenta de máscaras que envolveu um milionário português nos EUA.

Segundo o Buzz Feed, uma empresa com sede em Malta, propriedade do português Ricardo Jorge Pereira de Sousa Coelho, "um milionário com uma coleção de supercarros, empresas e residências em Malta, Seychelles, Hong Kong, Emirados Árabes Unidos e Estónia", esteve na origem de uma venda fraudulenta de máscaras.

As SafeMask, que chegaram aos EUA em fevereiro na sequência de uma campanha de divulgação por parte da MDE Commerce, eram vendidas a um preço bastante acima do valor do mercado, cerca de 39,99 dólares, cerca de 37 euros, por duas máscaras. 

Desde fevereiro que, pelo menos, mil milhões de emails foram enviados para promover a SafeMask, de acordo com uma investigação do BuzzFeed News e do Instituto de Dados, Democracia e Política da Universidade George Washington. 

À venda no mercado norte-americano, as máscaras eram consideradas "mais avançadas" e apelavam ao pagamento extra para obter uma garantia de três anos.

Os sites de venda da SafeMask exibiam uma imagem rotulada como um respirador N95 e promoveram também respiradores FFP2 de fabricação europeia antes de serem aprovados para venda nos Estados Unidos.

Após as primeiras reclamações, Sousa apresentou à publicação um documento que 
provava que as máscaras foram certificadas para o mercado europeu. No entanto, e de acordo com a Apave, a empresa francesa de testes mencionada, o documento parecia ter sido falsificado.

Ao BuzzFeed News, o empresário português afirmou que o spam da SafeMask era o trabalho de comerciantes afiliados desonestos que trabalhavam independentemente na sua empresa.

"Se encontrarem alguém que está a anunciar de forma não autorizada spam ou a mostrar algo de errado, ficarei mais do que feliz se me fornecerem isso", pediu.

Relativamente ao preço das máscaras, De Sousa confessou que a empresa não estava "a obter grandes lucros com eles". 

"Não é algo que eu saiba", admitiu o milionário quando soube que estava a vender máscaras a 10 ou mais vezes o preço normal de mercado, e acrescentou que não havia razão para os clientes pensarem que as máscaras eram reutilizáveis.

"Ninguém pode esperar que uma máscara dure para sempre. Não é razoável pensar assim", concluiu o português.

A garantia de três anos levou a que várias pessoas pensassem que as máscaras eram para uso a longo prazo, uma questão que o empresário também esclareceu. "Devolveremos o valor dessas garantias, prometo", disse o português, que mais uma vez alegou desconhecer a situação.

De Sousa recusou esclarecer o porquê de ter vendido máscaras certificadas na Europa para os norte-americanos antes das mesmas serem aprovadas para uso nos EUA. O milionário não referiu também quantas máscaras vendeu.

De Sousa, 31 anos, dirige a operação a partir de Tallinn, na Estónia, onde possui um armazém e escritórios. Juntamente com a MDE Commerce, é o único proprietário de, pelo menos, duas empresas estonianas ativas, uma das quais, DB2 Management OÜ

É igualmente dono de um grupo de empresas incorporadas nas ilhas Seychelles e na Suíça. Os veículos de luxo de De Sousa incluem um supercarro McLaren e uma Ferrari com a placa 404 LOL.

O português vende também aspiradores de pó, juntamente com drones, massajadores de pescoço, entre outros. O mais recente "sucesso" é a SafeMask.


Norte-americanos encomendaram, mas as máscaras não chegaram

Shell, um ator de teatro norte-americano, confessou ao BuzzFeed News ter recebido recentemente um email de um endereço desconhecido com o anúncio às SafeMask. 

"A imagem da [máscara] parecia agradável e resistente e poderia usá-la mais de uma vez", disse à publicação norte-americana e acrescentou: "É por isso que eu fui a favor".

Shell pagou duas máscaras e esperou que as mesmas lhe chegassem a casa. O problema foi que o material de proteção não chegou nunca. Ao pensar que tinha sido enganado, o ator ligou para o atendimento ao cliente e do outro lado ouviu uma versão diferente da história.

"Disseram-me que houve tanta procura pelas máscaras que estavam atrasados cerca de um mês". Shell ainda tentou brincar com a situação: "Espero estar vivo até lá".

A SafeMark surgiu num clima de incerteza e medo vividos um pouco por todo o mundo e também na sociedade norte-americana. O artigo foi largamente promovido na internet e arrecadou milhões de dólares graças ao envio da publicidade por email.

"Toda a gente está aterrorizada neste momento, e se eu oferecer uma cura milagrosa, é mais provável que seja aceite agora mais do que nunca. As pessoas estão a aproveitar esse medo e a lucrar com isso", afirmou Nil Schwartzman, diretor executivo da Aliança contra Email Comerciais não solicitados nos EUA.

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