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Correio da Manhã

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Mugabe oferece diálogo à oposição

Robert Mugabe, o presidente reeleito do Zimbabwe, afirmou ontem estar aberto para o diálogo com a oposição, "para reforçar a unidade e a cooperação". A estranha oferta de paz acontece no dia em que Mugabe foi formalmente empossado para cumprir mais um mandato, o sexto consecutivo, conquistado em eleições denunciadas, dentro e fora do país, como uma farsa.
30 de Junho de 2008 às 00:30
Mugabe festejou reeleição contestada pela comunidade internacional
Mugabe festejou reeleição contestada pela comunidade internacional FOTO: EPA

"Espero que muito em breve possamos, como representantes de partidos diferentes, realizar conversações", disse Robert Mugabe, numa oferta considerada pelo seu porta--voz, George Charamba, um gesto sincero e "um passo importante para o compromisso político".

O líder da oposição, Morgan Tsvangirai, rejeitou a oferta, como antes tinha rejeitado o convite para comparecer na cerimónia de investidura. "Não posso dar apoio a uma exibição à qual me oponho totalmente. Todo o Mundo a condenou e o povo do Zimbabwe não vai dar apoio ou legitimidade a isto."

Nelson Chamisa, porta-voz do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), de Tsvangirai, frisou: "Não vemos qualquer ligação entre estas palavras e os actos horríveis realizados à nossa volta."

Recorde-se que Tsvangirai venceu a primeira volta das eleições, a 29 de Março, e desistiu da segunda dias antes do escrutínio, considerando impossível uma eleição rodeada de actos de violência que vitimaram 90 dos seus apoiantes.

Ontem, a Comissão Eleitoral afirmou que Mugabe obteve 85,5% dos votos expressos, quase o dobro dos magros 43,2% da primeira volta. Bem diferente foi também o tempo decorrido entre a eleição, realizada sexta-feira, e a divulgação dos resultados. Na primeira volta, estes só foram conhecidos semanas depois, o que a oposição denunciou como uma manobra para esconder a vitória por maioria de Tsvangirai e forçar uma nova votação.

Os observadores da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) confirmaram ontem a ilegitimidade do escrutínio, assinalando que não foi realizado segundo os princípios democráticos, pelo que "não reflecte o desejo do povo do Zimbabwe". Refira-se que os EUA desejam aumentar a pressão sobre Harare, mas essa ideia conta com a oposição da União Africana e de países como a China, Rússia e África do Sul.

REACÇÕES

EUA querem pressão

A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, instou a China e outros países a tomarem medidas contra Mugabe. Pequim, a par de África do Sul e Rússia, tem bloqueado na ONU a aprovação de sanções contra o Zimbabwe.

Africanos em silêncio

Os países da União Africana, que hoje se reúne no Egipto, estão divididos quanto a Mugabe. O líder do Zimbabwe promete comparecer na reunião onde, segundo alguns observadores, a polémica reeleição não será debatida.

Tutu denuncia

O bispo sul-africano Desmond Tutu, Nobel da Paz em 1984, condenou a eleição de Mugabe, considerando "uma vergonha" a situação actual no Zimbabwe. "É um embaraço para a África aos olhos da comunidade internacional e tem de ser denunciado", afirmou Tutu, não afastando a possibilidade do recurso à força.

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