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Correio da Manhã

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Mulher é libertada após trabalhar como escrava durante 72 anos no Rio de Janeiro

Este é o mais longo período de escravidão contemporânea descoberta no Brasil desde a implantação.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 14 de Maio de 2022 às 16:07
Escravidão
Escravidão FOTO: Getty Images

Uma idosa de 84 anos trabalhou por longos 72 anos como escrava para três gerações de uma mesma família da cidade brasileira do Rio de Janeiro, onde foi resgatada por fiscais do Ministério do Trabalho e membros do Ministério Público. De acordo com o Ministério do Trabalho, é o mais longo período de escravidão contemporânea descoberto no Brasil desde a implantação, em 1995, de um programa permanente de combate a essa prática odiosa.

Alexandre Lira, auditor do Trabalho que comandou a ação, avançou à imprensa que a senhora, filha de dois empregados da família Matos Maia numa quinta no interior do estado, chegou à casa dos patrões no Rio de Janeiro com apenas 12 anos de idade. O sonho dela e dos pais, que a deixaram sair da quinta para isso, era estudar e ter uma vida menos dura do que a do pai e da mãe, mas não foi isso que aconteceu.

De acordo com a ação indemnizatória instaurada pelos fiscais do Ministério do Trabalho e pelos promotores do Ministério Público, a então ainda criança começou a cuidar da casa, dos patrões e dos filhos destes, e não lhe foi permitido matricular-se numa escola. Com o falecimento dos patrões originais, ela passou a trabalhar para os filhos deles e, mais tarde, também para os netos.

Ainda de acordo com os fiscais, ao longo dos 72 anos em que trabalhou para as várias gerações da família Matos Maia, a trabalhadora nunca recebeu qualquer ordenado, não teve direito a férias, folgas ou qualquer outro benefício previsto em lei. Segundo a investigação, a senhora dormia até hoje num sofá no corredor que dá acesso ao quarto da patroa mais velha, de quem cuidava, e ao longo de mais de sete décadas ela não foi autorizada a sair, fazer amigos, ir à escola ou ter contacto com a família, e, desde o início, os seus documentos foram confiscados pelos patrões.

Lira ainda contou que, ao pedir para falar a sós com a trabalhadora, o presumível atual patrão, identificado pelos auditores como André Matos Maia, terá puxado a idosa para um canto com força e a ameaçado se ela confirmasse que trabalhava há tanto tempo para a família. Ao falar com os fiscais e promotores, o dono da casa negou qualquer vínculo empregatício com a idosa, alegando que ela era como se fosse da família e realmente ajudava em algumas tarefas mas, avançou, meramente por gratidão.

Levada para um abrigo e cuidada por médicos e psicólogos, a idosa não tem a menor ideia de que foi escrava por toda a vida, já que entrou na casa da família aos 12 anos e nunca mais teve contacto com o mundo exterior. Pelo contrário, enquanto profissionais de várias áreas tentavam dar-lhe carinho e atenção e explicar-lhe a gravidade do que viveu de forma forçada, a idosa estava preocupada com o facto de não estar a cumprir o que acredita serem as tarefas dela e com o que os donos da casa pensariam e poderiam fazer com ela. 

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