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Correio da Manhã

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Pedofilia leva à falência dos Escoteiros da América

Instituição com mais de um século de vida declara falência após milhares de novas acusações de abusos sexuais.
Ricardo Ramos 19 de Fevereiro de 2020 às 01:30
Escoteiros EUA
Escoteiros EUA FOTO: Getty Images
Os Escoteiros da América, uma das mais prestigiadas e estimadas instituições norte-americanas, entrou com um processo de falência em tribunal devido à acumulação de milhares de processos por abusos de menores a seu cargo ao longo de várias décadas. O montante das indemnizações pode ascender a mais de mil milhões de dólares (920 milhões de euros).

A medida, conforme explicou esta terça-feira o presidente da instituição, Roger Mosby, visa garantir que todas as vítimas são indemnizadas e, ao mesmo tempo, assegurar a continuação da atividade do movimento.

Com esta declaração de falência, os Escoteiros da América podem congelar por vários meses os milhares de processos judiciais em curso por abuso de menores e negociar um acordo global que permita indemnizar todas as vítimas, em vez de negociar caso a caso nos tribunais, o que poderia levar com que muitas vítimas não recebessem a devida compensação. Uma estratégia idêntica foi usada por mais de vinte dioceses católicas americanas abaladas por casos de pedofilia nos últimos anos.

Além das centenas de casos que já estavam a ser tramitados na Justiça, a instituição foi, nos últimos meses, alvo de mais de dois mil novos processos por abusos sexuais, ao abrigo de legislação introduzida em vários estados na sequência do movimento ‘Me Too’, que suspendeu os prazos de prescrição dos crimes sexuais com várias décadas.

Para Paul Mones, que representa centenas de vítimas, a declaração de falência "é o resultado de décadas de encobrimento de abusos" na instituição.

Os Escoteiros da América prometem criar um fundo de mil milhões de dólares para indemnizar todas as vítimas, o que poderá levar a prestigiada instituição a ter de vender parte das suas propriedades, incluindo acampamentos e trilhos naturais espalhados por todo país.

"A maior rede pedófila do Mundo"
Mais de 7800 monitores e líderes locais dos Escoteiros da América suspeitos de pedofilia foram sinalizados desde os anos quarenta pela instituição, de acordo com um estudo interno divulgado no ano passado.

A maioria dos casos não foi comunicada às autoridades e os registos serviram apenas para garantir que os referidos indivíduos, depois de afastados discretamente, não podiam voltar a trabalhar para os Escoteiros noutros estados. Tim Kosnoff, advogado que representa mais de 800 vítimas, afirmou que se trata da "maior rede pedófila do Mundo".

Num processo judicial aberto em agosto de 2019 na Pensilvânia, Kosnoff identifica 350 abusadores que não faziam parte dos registos internos dos Escoteiros e acusou a instituição de ser "negligente" no processo de seleção dos voluntários.

"Souberam durante décadas que a instituição tinha sido infiltrada por predadores sexuais", apontou o advogado. Um dos queixosos, identificado apenas pelas iniciais SD, disse ter sido sexualmente abusado "centenas de vezes" entre os 12 e os 13 anos. Os Escoteiros da América reconheceram na altura que "houve casos que não foram resolvidos de maneira consistente com o compromisso de proteger os escoteiros e os valores da instituição".

Pormenores
Instituição em declínio
Os Escoteiros da América contam atualmente com cerca de 2,2 milhões de membros entre os 5 e os 21 anos, menos de metade dos quase cinco milhões registados nos anos 70.

Mórmones abandonam
A instituição foi abalada financeiramente pelo abandono de mais de 400 mil crianças mórmones no início deste ano, depois de a Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias ter decidido cortar os laços com os Escoteiros e desenvolver os seus próprios programas juvenis.

Fundados em 1910
Os Escoteiros da América foram fundados em 1910 e reconhecidos pelo Congresso em 1916, num decreto assinado pelo presidente Woodrow Wilson. Mais de 110 milhões de americanos passaram pelo movimento, incluindo o antigo diretor da CIA Robert Gates.

Decisão de acolher raparigas motivou ‘guerra’ em tribunal com as Guias
Durante mais de um século, os Escoteiros da América foram uma instituição exclusivamente masculina.

A decisão de admitir raparigas, no ano passado, vista com uma passo importante em defesa da inclusão e da diversidade, motivou uma guerra em tribunal com as ‘Girl Scouts of America’, equivalente às Guias portuguesas.

Estas alegaram que a medida, que envolvia a mudança de nome de alguns dos programas para crianças e adolescentes, iria criar confusão e "marginalizar" as suas atividades.

Abertura aos homossexuais
Após forte polémica, os Escoteiros da América levantaram em 2015 a proibição de contratação de líderes homossexuais, dois anos depois de terem aceitado pela primeira vez a inscrição de escoteiros homossexuais.

Abusos de Nassar abalaram Ginástica
A Federação de Ginástica dos EUA declarou falência em 2018 na sequência dos processos judiciais por abuso sexual movidos por 180 ex-atletas contra o médico Larry Nassar, que acabou por ser condenado a 175 anos de cadeia.
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