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Correio da Manhã

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Presidente angolano ataca impunidade dos poderosos

João Lourenço foi eleito em agosto com a promessa de combater a corrupção.
Francisco J. Gonçalves 19 de Novembro de 2017 às 01:30
Lourenço rendeu o homem que governou Angola durante 38 anos e deu início a uma reforma de fundo em que poucos acreditavam
José Eduardo Paulino dos Santos
Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos
Isabel dos Santos foi afastada da liderança da Sonangol
Lourenço rendeu o homem que governou Angola durante 38 anos e deu início a uma reforma de fundo em que poucos acreditavam
José Eduardo Paulino dos Santos
Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos
Isabel dos Santos foi afastada da liderança da Sonangol
Lourenço rendeu o homem que governou Angola durante 38 anos e deu início a uma reforma de fundo em que poucos acreditavam
José Eduardo Paulino dos Santos
Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos
Isabel dos Santos foi afastada da liderança da Sonangol
O novo presidente de Angola, João Lourenço, eleito em agosto, encetou uma reforma de fundo que visa dar cumprimento, antes de mais nada, à promessa que fez de combater a corrupção. Apesar de agora declararem que o que fez era esperado, a verdade é que ninguém, tanto no MPLA, partido no poder, como na oposição, esperava que o sucessor de José Eduardo dos Santos, líder incontestado durante 38 anos, tivesse a ousadia de afastar os filhos do ex-presidente. Os herdeiros do antigo presidente mantêm, contudo, uma fortuna milionária em sua posse pois terão recebido, segundo o ‘Expresso’, mais de 12 mil milhões de euros desde 2006, em negócios ‘subsidiados’ pelo Estado.

Quando em fevereiro passado se começou a falar de Lourenço como sucessor, todos o apontavam como uma marioneta de Eduardo dos Santos, a quem caberia fazer uma reforma cosmética para manter tudo na mesma. Mas, ao demitir esta semana Isabel dos Santos da Sonangol e retirar a gestão do segundo canal da TV pública à empresa de que são sócios Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos e José Paulino dos Santos, Lourenço atacou pela raiz a herança do líder histórico do MPLA e demonstrou que a promessa feita na tomada de posse, de combater a impunidade dos poderosos, era mais do que palavras. Na verdade, dos filhos do ex-presidente ficou apenas José Filomeno dos Santos, que se mantém à cabeça do Fundo Soberano de Angola, mas parece condenado. Filomeno terá feito investimentos irregulares de quase cinco mil milhões de euros e poderá ser destituído por gestão danosa.

Quanto a Isabel dos Santos, além de perder a Sonangol perdeu também o monopólio da comercialização de diamantes, embora tenha investimentos ocultos e possa também ser afetada pela reavaliação do projeto da barragem de Caculo Cabaça, onde a filha mais velha do ex-presidente tem interesses avultados.


‘Princesa de Angola’ perde milhões mas mantém fortuna
Em fevereiro de 2016, Isabel dos Santos, conhecida como ‘princesa de Angola’, afirmou ao ‘The Wall Street Journal’: "Não sou financiada por dinheiro do Estado ou fundos públicos." A frase pretendia defender a ideia de que a sua fortuna, estimada em mais de 3 mil milhões de euros, nada devia a negócios obscuros. Contudo, tanto as empresas por ela tuteladas como as dos restantes filhos de Eduardo dos Santos terão recebido do Estado, desde 2006, mais de 12 mil milhões de euros em negócios.

No caso de Isabel dos Santos, acresce ainda que as ações na Galp, que representam boa parte da sua fortuna, terão sido adquiridas com fundos da Sonangol, ou seja, dinheiro público. Com o seu afastamento da chefia da petrolífera angolana, os milhões do petróleo estão em risco, mas Isabel dos Santos possui fortuna ‘paralela’ no setor dos diamantes, nomeadamente através da Wise Intelligence Solutions. Registada em Malta em 2010, segundo o ‘Expresso’, é gerida pelo português Mário Leite da Silva.

O peso dos diamantes
O marido de Isabel dos Santos, Sindika Dokolo, tem interesses importantes na comercialização de diamantes de Angola através de empresas-fantasma. ‘Tchizé’ dos Santos e o marido, Hugo Pêgo, estão também ligados á exploração diamantífera.

Agropecuária
O Fundo Soberano de Angola tem investimentos importantes no setor agropecuário em várias províncias angolanas que terão custado mais de 400 milhões de euros aos cofres do Estado sem retorno conhecido.

Petróleo privado
A petrolífera estatal angolana Sonangol fechou negócios milionários com empresas de Isabel dos Santos, como a UCALL, Candando e Wise Inteligence Solutions, refere o ‘Expresso’.

Conflito de interesses
José Filomeno dos Santos, presidente do Fundo Soberano de Angola, celebrou contratos entre o fundo público que tutela e empresas suas, como a Quantum Global e o Banco Kuanza Investe, negócios que terão rendido milhões, depois investidos em paraísos fiscais.

Negócios em Malta
O jornal ‘Malta Today’ deu conta, em 2015, de uma vasta rede de empresas ligadas a Isabel dos Santos registadas na ilha, entre elas Victoria Holding, Victoria Limited, Finisantoro Holding, Kento Holding, Piccadilly Holdings, Soho Global Management Solutions, Wise Intelligence Solutions Holding e Athol Limited.


Filhos de Eduardo dos Santos perdem TV pública
A influência que o ex-presidente mantinha nos media angolanos está também a ser atacada por João Lourenço, que retirou à Semba Comunicação, de que são sócios Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos e o irmão, José Paulino dos Santos, a gestão do canal dois da TV pública.

Diretor do Tesouro detido por desvio de fundos públicos
O diretor nacional do Tesouro angolano, Edson Vaz, foi detido ontem por suspeita de desvio de fundos através de contratos com empresas fictícias, que  recebiam pagamentos por serviços "nunca prestados ao Estado, sobretudo em Obras Públicas", referiram fontes policiais. O Ministério das  Finanças recusou comentar o caso.
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