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Túneis de droga e fugas da prisão: A vida do carismático barão do narcotráfico 'El Chapo'

Condenado a prisão perpétua em 2019, Joaquín Guzmán é o protagonista de uma das maiores histórias de violência e morte ligadas ao mundo do tráfico de droga.
Marta Quaresma Ferreira(martaferreira@cmjornal.pt) e Iúri Martins(iurimartins@cmjornal.pt) 27 de Fevereiro de 2021 às 10:53
Condenado a prisão perpétua em 2019, Joaquín Guzmán é o protagonista de uma das maiores histórias de violência e morte ligadas ao mundo do tráfico de droga.
Por Marta Quaresma Ferreira(martaferreira@cmjornal.pt) e Iúri Martins(iurimartins@cmjornal.pt) 27 de Fevereiro de 2021 às 10:53

Tráfico de droga, assassinatos, cartéis e muito dinheiro. Este podia ser o curto resumo da vida agitada de Joaquín Archivaldo Guzmán Loera. Apelidado de ‘El Chapo’, um trocadilho em espanhol devido à sua baixa estatura (apenas 1,68 metros), o senhor da droga foi protagonista de duas célebres fugas da prisão e é considerado um dos maiores nomes do narcotráfico mundial.

Nascido em 1957 na quinta de La Tuna, no município mexicano de Sinaloa, no seio de uma família pobre e de agricultores, ‘El Chapo’ dedicou-se ainda jovem, com apenas 15 anos, à plantação de ópio e marijuana, em colaboração com o traficante local Héctor Luis Palma Salazar.

Este seria um dos primeiros passos na entrada no mundo do narcotráfico, realidade da qual nunca saiu, tendo-se transformado num dos maiores barões de droga já depois da morte do colombiano Pablo Escobar, em 1993.

"A única maneira de ter dinheiro para comprar comida, de sobreviver, é plantar ópio, marijuana. Com aquela idade [15 anos] comecei a cultivar e a vender"

'El Chapo', em entrevista à Rolling Stone, em 2015

A proliferação dos cartéis mexicanos 
Na década de 1980, e em plena época de proliferação dos cartéis e do crescimento do negócio da cocaína, proveniente da vizinha Colômbia, Guzmán integrou o cartel de Guadalajara, um dos principais grupos de narcotraficantes liderado à época por Miguel Ángel Félix Gallardo, também conhecido como "El Padrino".

Um dos episódios mais marcantes da guerra ao narcotráfico culminou na altura com a morte do agente da DEA – Administração de Fiscalização de Drogas (Drug Enforcement Administration, em inglês) – Enrique Camarena Salazar, torturado cruelmente pelo cartel numa fazenda durante vários dias.

O caso levou à prisão do "Chefe dos Chefes", Félix Gallardo, provocando a divisão do império em vários cartéis.

Abria-se assim uma janela de oportunidade para 'El Chapo' consolidar o crescimento do cartel de Sinaloa e garantir um lugar na história. Juntamente com o seu compadre, começou a dominar o negócio em algumas regiões do país, desde logo a partir da sua terra natal, Sinaloa.

O cérebro por detrás dos túneis
Era considerado por muitos como o "Robin Hood", numa alusão à ajuda que ofereceu à região mexicana em termos de alimentação e assistência.

Pioneiro na construção e na utilização de túneis subterrâneos, foi desta maneira que Guzmán conseguiu transportar droga até ao outro lado da fronteira mexicana, para os EUA, durante vários anos.'El Chapo' foi preso pela primeira vez em 1993, após uma guerra territorial entre contrabandistas de droga.

Condenado a 20 anos de prisão, o seu nome viria a marcar para sempre a história do narcotráfico, mesmo a partir da cadeia. Num perfil psicológico realizado na prisão, e citado pela revista The New Yorker, é descrito como "egocêntrico, narcisista, astuto, persistente e reservado". A passagem pela cadeia iria, no entanto, durar pouco tempo.

"Onde eu cresci não havia outra maneira de sobreviver e ainda não há, não há maneira da nossa economia funcionar de forma a vivermos"

‘El Chapo’, em entrevista à Rolling Stone, em 2015

A primeira fuga da prisão
Janeiro de 2001. Bastaram oito anos para que Guzmán pusesse em prática aquela que viria a ser a sua primeira fuga de uma prisão.

Entre as várias teorias reveladas ao longo dos anos em documentários e livros, a versão de que ‘El Chapo’ fugiu da prisão de máxima segurança de Puente Grande, no estado mexicano de Jalisco, escondido num carrinho de lavandaria é a mais reconhecida. No entanto, autores e jornalistas defendem que o senhor da droga terá saído simplesmente pela porta, com a ajuda de guardas prisionais e debaixo de um ‘manto’ de corrupção instalado no sistema prisional.

13 anos escondido das autoridades
A fuga viria a resultar na ascensão do cartel de Sinaloa.

Durante mais de uma década, ‘El Chapo’ viveu e trabalhou em diferentes cidades, localizadas estrategicamente numa zona rural designada de "Triângulo Dourado", uma região mexicana próspera em plantação de marijuana e ópio.

Durante o último julgamento de ‘El Chapo’, em 2019, Alex Cifuentes, outro narcotraficante do cartel de Sinaloa, descreveu as casas do barão da droga como rústicas por fora, mas equipadas com todas as comodidades no interior. Tinha televisão plasma, leitor de DVD’s e antena parabólica e contava com uma equipa de guarda-costas e duas criadas, mesmo em pleno período de fuga.

O volume de negócios ganhou uma nova dimensão e durante os anos de fuga os subornos chegaram até a uma das mais altas entidades mexicanas: a Presidência.

Felipe Calderón, presidente mexicano entre 2006 e 2012, e Enrique Peña Nieto, que ocupou o cargo entre 2012 e 2018 terão recebidos centenas de milhões de dólares para "encobrir" a "explosão branca" que decorria no país. De acordo com a BBC, estas revelações surgiram durante o último julgamento do narcotraficante, em 2019, com os antigos presidentes a rejeitarem qualquer uma das acusações.

Durante 13 anos, as autoridades fizeram uma autêntica caça ao homem. Guzmán contou com vários apoios como o Cartel do Valle del Norte e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) para o transporte de centenas de toneladas de cocaína através de barcos e submarinos.

A expansão da rede de túneis permitiu também aumentar o tráfico e intensificou, igualmente os ataques de rivais.

Outro dos grandes segredos da primeira fuga de ‘El Chapo’ estava nos equipamentos de espiação. Christian Rodríguez, técnico de comunicação digital colombiano, foi responsável por instalar o software e equipamentos ao traficante entre 2008 a 2012.

O objetivo? Um sistema à prova de fiscalização que permitisse espiar funcionários, parceiros, inimigos, incluindo a sua própria mulher, Emma Coronel.

Rodríguez acabou por começar a colaborar com as autoridades norte-americanas. O software que ele próprio instalara ‘tramou’ o líder do cartel de Sinaloa após o acesso a conversas sobre tráfico, violência e subornos.

"[O tráfico de droga] não vai terminar porque à medida que o tempo avança, somos mais, isto nunca vai acabar"

‘El Chapo’, em entrevista à Rolling Stone, em 2015

De regresso à prisão
Guzmán foi apanhado em fevereiro de 2014, num resort de Mazatlán, em Sinaloa, depois de mais de uma década em fuga. O presidente mexicano da altura, Enrique Peña Nieto, afirmou que seria "imperdoável" que o governo não evitasse uma nova fuga do narcotraficante. Mas pouco tempo depois, a história repetiu-se.

Joaquin 'El Chapo' Guzman escoltado por soldados após segunda detenção no México, 2014
Joaquin 'El Chapo' Guzman escoltado por soldados após segunda detenção no México, 2014
Joaquin 'El Chapo' Guzman escoltado por soldados após segunda detenção no México, 2014

O túnel e a segunda fuga
Cerca de um ano. Foi este o período de tempo que demorou até ‘El Chapo’ fugir novamente da prisão. A 11 de julho de 2015, o traficante colocou em prática mais uma fuga, através de um túnel, com quase 10 metros de profundidade, escavado a partir da casa de banho da cela da prisão de Toluca, uma das mais seguras do México, até uma casa em obras a cerca de 1,6 quilómetros de distância. 

Cela onde viveu El Chapo antes da fuga, em 2015, no México
Cela onde viveu El Chapo antes da fuga, em 2015, no México
Cela onde viveu El Chapo antes da fuga, em 2015, no México
Cela onde viveu El Chapo antes da fuga, em 2015, no México
Cela onde viveu El Chapo antes da fuga, em 2015, no México
Buraco pelo qual escapou El Chapo da prisão, em 2015
Túnel pelo qual El Chapo escapou em 2015
Túnel por onde escapou El Chapo, em 2015, estava equipado com ventilação e uma mota
A verdadeira obra de engenharia incluía ventilação, carris semelhantes aos utilizados nas minas e uma moto que auxiliava na retirada do entulho provocado pela construção do túnel.

Imagens divulgadas anos depois mostraram o preciso momento em que o prisioneiro se evadiu pelo buraco escavado por baixo do chuveiro da cela.
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A terceira e última detenção
A entrevista à Rolling Stone e os consequentes encontros com os atores Kate del Castillo e Sean Penn, em outubro de 2015, lançaram o rastilho para a sua última detenção. O barão da droga viria a ser apanhado em Los Mochis, a 8 de janeiro de 2016, após as autoridades norte-americanas terem monitorizado o local da entrevista.

Foi depois extraditado para os EUA no ano seguinte, onde viria a ser julgado.

"Vocês vão todos morrer", terá dito às autoridades no momento da sua captura em Los Mochis, no México, a 8 de janeiro de 2016.

BBC

Prisão perpétua nos EUA
Três anos depois da terceira detenção, ‘El Chapo’ foi condenado a prisão perpétua e mais 30 anos, num longo julgamento que decorreu durante várias semanas em Nova Iorque e que contou com várias testemunhas ligadas ao narcotraficante, desde ex membros do cartel de Sinaloa, autoridades e até a própria mulher.

O procurador-geral adjunto Adam Fels terá mesmo afirmado em tribunal que Guzmán foi responsável por enviar o equivalente a mais de uma linha de cocaína por cada pessoa nos Estados Unidos em apenas quatro remessas de droga.

Guzmán foi declarado culpado de todos os dez crimes de que estava acusado.

A prisão de segurança Máxima em Florence, no estado norte-americano do Colorado, é a atual residência de ‘El Chapo’. Considerada como a prisão mais segura dos EUA, a "Alcatraz das Montanhas Rochosas", como também é conhecida, alberga alguns dos maiores criminosos do país. Os reclusos são confinados à cela 23 horas por dia, em regime de solitária.

A cela de "El Chapo"
Cartel continua "vivo"
Apesar da prisão de 'El Chapo', o cartel de Sinaloa continua a operar aos dias de hoje no México.

Ovidio Guzmán, um dos filhos do traficante, chegou a ser capturado pela polícia militar mexicana em outubro de 2019.

No entanto, com a ajuda do cartel, a operação acabou por ser cancelada e os militares bateram em retirada.

Grande parte das operações passaram a ser também conduzidas por Ismael "El Mayo" Zambada, um antigo associado do narcotraficante.
Filho de 'El Chapo', Ovidio Guzman, apanhado por militares mexicanos
Filho de 'El Chapo' libertado após revolta de narcotraficantes no México
Filho de 'El Chapo' libertado após revolta de narcotraficantes no México
Filho de 'El Chapo' libertado após revolta de narcotraficantes no México

Emma Coronel: A leal companheira
Emma Coronel tinha 17 anos e acabado de ganhar o concurso de beleza de Sinaloa quando conheceu ‘El Chapo’ numa festa. Guzmán, com então 51 anos, dançou com a jovem, que tinha namorado na altura. Um ano depois, e com apenas 18 anos, Coronel viria a casar com o traficante do qual teria duas filhas gémeas, em 2011.

Guzmán foi casado três vezes antes do casamento com a atual mulher: a primeira em 1977 com Alejandrina María Salazar Hernández, com quem teve quatro filhos, incluindo César, Iván Archivaldo, Jesús Alfredo e Alejandrina Giselle. Chegou a admitir que era viciado em mulheres, revelando que era pai de 23 filhos.

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Emma Coronel Aispuro, a leal companheira de 'El Chapo' acusada de manter cartel de drogas ativo
Atualmente com 31 anos, a mulher de ‘El Chapo’ continua a ser um dos pilares do narcotraficante, tendo sido presa recentemente, a 22 de fevereiro de 2021, por suspeitas de colaborar com o marido na gestão do império do narcotráfico e por ter conspirado para ajudá-lo a escapar da prisão em 2015.

Poderá o futuro do cartel estar comprometido?
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