Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
8
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Almeida Henriques

Redenção

O País pode bem queixar-se de si próprio e das suas políticas, ou da falta delas.

Almeida Henriques 16 de Agosto de 2016 às 00:30
Algumas teologias professam que o fogo purifica, que redime, mas a onda devoradora de chamas que engoliu o País ainda só deixou um lastro de destruição. Ou melhor: um lastro de destruição e um teatro dantesco e perverso de imagens televisivas e clamores públicos. Juntos fazem um circo de entretenimento e hipocrisia. O espetáculo decadente dos fogos nada ajuda, nem ao combate às chamas nem ao combate aos seus autores e responsáveis.
Os brados e lamentos que se ouvem são a reza da época: povoam a paisagem moral do país estival como um alívio passageiro de más consciências.

O País pode bem queixar-se de si próprio e das suas políticas, ou da falta delas, ao longo de várias décadas. Um muito errático e irresponsável ordenamento do território, uma lei dos solos ineficiente e perdulária, a desvalorização da economia rural e da floresta e uma moldura penal desajustada conduziram a este precipício profundo. A fatura da incompetência e da irresponsabilidade, do centralismo obtuso do Estado, das profundas assimetrias regionais e do desprezo sistemático pelo Interior está aí e demorará a ser saldada.

O País e as políticas do território precisam de uma redenção e de uma conversão. Enquanto nos esgotarmos no combate sazonal aos fogos e no financiamento de toda a sua parafernália de instrumentos; enquanto nos embriagarmos com as imagens e os clamores provisórios de emoção ou protesto, nada mudaremos. A reforma do Estado e da política territorial pública continuará a ser a prioridade, por muito pouco "sexy" e instantânea que seja.

Nota final para uma homenagem às mulheres e homens anónimos, de muitas e muitas corporações de bombeiros, que em Viseu como na Madeira, em Arouca como no Alto Minho, e por todo o País, combateram e combatem este furor destruidor. O País exige-lhes bem mais do que deveria, mas está-lhes grato.
Almeida Henriques opinião
Ver comentários