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Almeida Henriques

Mal banal?

A conquista da segurança sempre se fez à custa de algumas liberdades individuais.

Almeida Henriques 17 de Novembro de 2015 às 00:30
A expressão foi cunhada por uma intelectual judia, Hannah Arendt, há 50 anos, nas suas reportagens sobre o julgamento do alto funcionário nazi das "SS" Adolf Eichmann, para a revista norte-americana ‘The New Yorker’, em Jerusalém.

A ideia de um "mal banal" associada ao Holocausto gerou profunda polémica e incompreensão no seu tempo, em vários quadrantes, mas teve o mérito de definir a profunda malignidade do "funcionário", do "tecnocrata". Isto é, daquele que cumpre ordens de forma zelosa, maquinal e eficiente, sem qualquer juízo moral ou questionamento ético sobre o que faz.

Esta lembrança assaltou-me ao assistir, "em direto", aos ataques terroristas de Paris de sexta-feira passada. Quem perpetra ataques tão hediondos, desumanos e cruéis comporta-se como um funcionário destituído de qualquer moral e respeito pelo valor sagrado da vida humana.

Mas mais: esta estirpe de maldade é ensinada! Quer dizer, é fruto de uma instrução e de um treino, e no seio da própria Europa, no coração da civilização ocidental. Esta conclusão não pode deixar de perturbar e obrigar a uma séria reflexão. Reflexão política sobre o futuro da nossa civilização ocidental e sobre os erros históricos que a Europa cometeu para que se visse, hoje, assim tão vulnerável.

No terrorismo islâmico, há ainda o facto novo e perverso de ser uma guerra sem um centro. Ela não se trava só na Síria, mas virtualmente em todo o lado. É uma guerra de guerrilha. Pode eclodir em qualquer parte, a qualquer momento. A toda a hora e lugar. Paris, Londres, Washington, Madrid ou Lisboa.

Seja radical ou banal este mal, certo é que ele precisa de respostas firmes, persistentes e sistemáticas. Precisa de ser controlado e erradicado, se queremos salvar a nossa liberdade e o nosso modo de vida. Esta será uma guerra dura, longa, cara e desgastante, e que colocará novos problemas. É que a conquista da segurança sempre se fez, historicamente, à custa de algumas liberdades individuais.

Estes dias, a Europa levou um duro soco no estômago. A liberdade, a democracia e o humanismo que construímos estão sob fogo. Não havendo alternativa a uma luta sem tréguas a esta ameaça, precisamos como nunca de governabilidade e lideranças fortes. Na Europa como em Portugal.
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