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Almeida Henriques

Não há necessidade

O país é tão rico e diversificado no seu património como centralista e perdulário.

Almeida Henriques 25 de Agosto de 2015 às 00:30
Regresso de Foz Coa a Viseu, depois de uma inesquecível descoberta da galeria de arte a céu aberto que é o parque arqueológico do Coa. Experiência de cortar a respiração! Um extenso vale a perder de vista, com milhares de gravuras legadas pelo génio criador de antepassados nossos do Paleolítico Superior.

Nesse regresso, dou de caras com a notícia de que, na capital (invariavelmente), milhares e milhares de turistas "desesperam" em longas filas de espera, "à torreira do sol", para entrar num monumento nacional. A notícia acrescenta detalhes caricaturais: "por vezes são necessárias horas" para fazer a visita, "o multibanco está fora de serviço" e "as visitas guiadas desapareceram"...

O contraste deste relato com a minha experiência de instantes antes suscita-me o sorriso do absurdo, seguido de uma inquietação: o país é tão rico e diversificado no seu património como centralista e perdulário. Vem-me à cabeça a célebre deixa do Diácono Remédios, de moralidade duvidosa: "Não havia necessidade".

Certo é que Portugal tem hoje no seu património classificado, distribuído pela generalidade das regiões (como é o caso do Vale do Coa), no seu património natural (parques naturais não nos faltam!) ou em cidades médias, como Viseu, destinos culturalmente atrativos, com monumentalidade relevante e experiências cativantes para turistas internos e externos. Onde não faltam qualidade de vida, acessibilidades, hotelaria de charme, gastronomia superior e complementaridade de oferta.

Depois da crise do ‘boom’ turístico do Algarve (que entretanto aprendeu a lição e está a mudar de estratégia), o ‘boom’ turístico de Lisboa, e também do Porto, ameaça a satisfação dos seus visitantes e dos próprios residentes, com legítimas expectativas de viver nas suas cidades.

Essa ameaça pode ser, no entanto, uma enorme vantagem e oportunidade para outros territórios. Pode bem ter chegado o tempo de outros destinos se afirmarem — a hora das cidades médias e dos territórios em seu torno. Oxalá os decisores despertem a tempo...

Nem de propósito, amanhã será apresentada a segunda edição da Festa das Vindimas de Viseu, cidade vinhateira do Dão, que tem 2500 anos de história.

É mesmo preciso "desesperar" em longas filas de espera?
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