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André Ventura

A república do sangue corrupto

Quando a corrupção chega a áreas tão sensíveis como o negócio do sangue, está feito o diagnóstico da nossa República.

André Ventura 19 de Dezembro de 2016 às 00:31
Permita-me o leitor que inicie este artigo com uma manifestação pública de reconhecimento. Afinal, o CM e a CMTV estavam corretos quando, há alguns anos, trouxeram este tema para a praça pública, fruto de intensa investigação jornalística. Afinal, as pedras que foram atiradas e as insinuações persecutórias não tinham qualquer razão de ser. Afinal, havia um fundo de trágica verdade na complexa teia de interesses que envolve o negócio do sangue e a Octapharma.

E, se estão de parabéns estes bravos jornalistas, o mesmo não acontece com a nossa jovem democracia. É impressionante ver como os tentáculos da corrupção atingiram, amordaçaram e degradaram todos os setores do serviço público, com tanta complacência do poder político, especialmente dos partidos maioritários. E mais impressionante ainda é constatar como não há limites éticos nem barreiras morais a essa teia venenosa, que não resiste sequer a áreas tão sensíveis e cruciais como o negócio do sangue para os nossos hospitais.

À luz das suspeitas que hoje temos, ficam legítimas dúvidas acerca da atribuição do monopólio da venda do plasma sanguíneo à Octapharma, em 1999. Será que, se tudo tivesse funcionado normalmente, o Estado teria feito um melhor negócio? Os hospitais teriam tido acesso a mais e melhores produtos? Os utentes teriam saído beneficiados de uma concorrência saudável e legítima? Ter-se- -iam salvo vidas humanas? A teia maliciosa da corrupção parece não ter limites na tentação de subverter o funcionamento de todos os serviços públicos, mesmo aqueles que estão em estrita relação com a dignidade dos portugueses, como a saúde e o bem-estar.

Quando recaem oficialmente suspeitas sobre o antigo homem-forte do INEM e sobre uma representante da Associação Portuguesa de Hemofilia, algumas das figuras que mais deveriam zelar pela nossa saúde, é porque o sangue da nossa República está definitivamente doente. Ainda terá salvação?

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A personalidade: Cristiano Ronaldo
Recebeu a quarta Bola de Ouro e manifestou vontade de continuar a somar títulos e troféus. Um caso impressionante de trabalho, dedicação e força de vontade que em muito honra Portugal e o futebol português, cá dentro e além- -fronteiras. Ronaldo manifestou-se ainda ‘inocente’ no âmbito do escândalo de fuga tributária com ligações a paraísos fiscais.

Positivo: Estado Islâmico
A organização terrorista sofre pesadas derrotas territoriais e vai perdendo as suas bases de apoio. Agora foi a cidade líbia de Sirte a libertar-se das garras do Estado Islâmico.

Negativo: Cornucópia
O anunciado encerramento do Teatro da Cornucópia é um sinal muito negativo do estado da cultura em Portugal e da relação desta com o poder político e económico.  

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