Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
6
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

António Sousa Homem

A limonada roubada a Ponte de Lima

“Pelas cinco e meia da tarde, servia-se a limonada: limões maduros espremidos, água fresca, uma folha de hortelã por copo, pedaços irregulares de gelo e a presença – hoje proibida por lei – do açúcar amarelo”

António Sousa Homem 14 de Agosto de 2016 às 00:30
A breve canícula deste Agosto leva-me às memórias do velho casarão de Ponte de Lima – que era, em simultâneo, a casa da família, o repouso preferido do velho Doutor Homem, meu pai, e o reino absoluto da Tia Benedita.
O nosso Verão estava marcado por esse nome que toda a família pronuncia com respeito e sem ironia. A Tia Benedita amava Ponte de Lima, onde viveu e onde morreu sitiada – imaginava ela – pela imoralidade, pelo bolchevismo e pela república. Na verdade, não conheceu nenhuma destas coisas; limitou-se a verificar que o tempo passava sobre o retrato do senhor Dom Miguel, emoldurado e protegido ao fundo do corredor de granitos e reposteiros, e que a família (um emaranhado de irmãos, cunhados e cunhadas, sobrinhos, sobrinhos-netos, primos de vários graus, a lista é enorme) se juntava para celebrar todos os anos o milagre desta genealogia.
Porém, além das celebrações, as minhas memórias de Ponte de Lima têm a ver com a simplicidade do Verão – e com a limonada. Na semana passada, mencionei aos meus benevolentes leitores a paixão do meu Tio Alberto, o gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, pelas ostras da Galiza. Tudo isso estava bem, tal como o arroz de pato da Tia Henriqueta, que nós considerávamos a gloriosa musa da família, ou o momento em que Tia Glória descia dos Arcos para nos abastecer com pratos de pudim. Mas a limonada, servida na sua jarra pintada à mão, faz parte da história da beleza estival e dos hábitos de Ponte de Lima.
Pelas cinco e meia da tarde, servia-se a limonada: limões maduros espremidos, água fresca, uma folha de hortelã por copo, pedaços irregulares de gelo e a presença – hoje proibida por lei – do açúcar amarelo.
Nestes crepúsculos de Agosto, leves e maravilhosos, perfumados pela mistura de águas de colónia usadas depois da praia (Moledo continua a ser o refúgio habitual para os meus sobrinhos), é costume repetir o ritual: Dona Elaine usa o açúcar amarelo na limonada como há cinquenta e sessenta anos se fazia em Ponte de Lima. A cor, ligeiramente âmbar, mistura-se com a folhagem dos hibiscos e das japoneiras que protegem a varanda. A minha sobrinha Maria Luísa, eleitora esquerdista da família, decretou que a limonada de Moledo seria, doravante, um dos símbolos do Verão – e do Verão de Moledo. Por aqui se vê que uma família conservadora é uma família que conhece a sua limonada.
Ponte de Lima Doutor Homem Tia Benedita Dom Miguel Tio Alberto São Pedro de Arcos
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)