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António Sousa Homem

A família não teria votado em nenhum presidente

“O velho entusiasta do oboé e antigo engenheiro militar dos sertões de África chegou mesmo a votar no general Eanes, por lhe parecer um homem sisudo”

António Sousa Homem 17 de Janeiro de 2016 às 12:58
O dr. Paulo compareceu ao jantar de sexta--feira passada de gravata e casaco de ‘tweed’ – com o argumento de que tinha ido fazer análises logo de manhã e de que gostava de se apresentar dignamente na clínica, como se não fosse apenas o seu sangue que estivesse sob escrutínio, mas tudo o resto, incluindo a aparência. De qualquer modo, foi ele – e não Maria Luísa, como se esperava – que se distraiu e falou sobre as eleições presidenciais que se aproximam.
É preciso esclarecer os meus leitores benevolentes que o jantar de sexta-feira é uma espécie de antecâmara intimista para o fim de semana dos frequentadores deste eremitério de Moledo: nunca mais de quatro convidados; a ementa conclui com café, pudim e vinho do Porto (para que, sempre à mesa, se tratem depois os assuntos da semana); e o serão é mais tardio do que o costume – a minha sobrinha Maria Luísa, eleitora esquerdista da família, vem de Braga; o dr. Paulo nunca se sabe de onde aparece; a dra. Celina, nossa bibliotecária de Caminha, vem às vezes, pelo menos à hora do café; o meu sobrinho Pedro vem do Porto e telefona duas vezes pelo caminho; a "pequena holandesa", Isabelle, a namorada frísia do meu sobrinho Pedro, vem mensalmente de Amesterdão como se estivesse de visita aos trópicos; todos os outros convidados ou habituais visitas variam muito, mas quase nenhum deles comenta eleições.
O dr. Paulo acha que terá de votar no prof. Marcelo, mesmo considerando-o "ligeiramente pantomineiro". Creio que a generalidade da família (tirando a minha sobrinha Maria Luísa e o Tio Henrique), se estivessem vivos metade dos antepassados cujos retratos se conservam pelos corredores do velho casarão de Ponte de Lima, diria a mesma coisa.
Dos seus irmãos, apenas o Tio Henrique sobreviveu ao velho Doutor Homem, meu pai (que morreu no final de 1974); o velho entusiasta do oboé e antigo engenheiro militar nos sertões de África chegou mesmo a votar no general Eanes, por lhe parecer um homem sisudo e lhe lembrar o seu comandante de infantaria às portas do deserto de Moçâmedes. Daí em diante, não creio que os nossos antepassados – mesmo na categoria de amáveis fantasmas – tivessem podido votar em algum presidente. E, olhando bem para a lista de candidatos, é preciso dar alguma razão à Tia Benedita, que no dia das eleições mandaria fechar as portadas para que não a incomodassem.
Maria Luísa Moledo Caminha
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