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António Sousa Homem

As primeiras mimosas do ano

Na semana passada, a minha sobrinha Maria Luísa levou-me de passeio pela estrada do Gerês – que eu chamo "a via panorâmica" – para cumprir a obrigação de retirar da garagem o velho automóvel que, misteriosamente, continua a existir desde 1978

António Sousa Homem 9 de Fevereiro de 2020 às 00:30

É uma velharia, como grande parte das coisas da minha vida, sobrevivendo à passagem do tempo, às mudanças automáticas e aos motores eléctricos.
O velhíssimo ‘coupé’ XJ6 de cor verde foi comprado nos anos a seguir à revolução como um último desafio contra a ordem das coisas e a situação política, tal como o Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, adquiriu nos anos cinquenta aquele que julgava o mais belo dos carros para o seu temperamento, um Alfa Romeo Villa d’Este. Naquele tempo, um carro assim nas estradas do Minho (ou entre o Porto, Viana e Ponte de Lima) era uma afronta aos elementos e às condições da orografia regional, confronto que o Tio Alberto venceu solitária e definitivamente quando entrou em Braga transportando (no banco traseiro) a Tia Benedita, que ia assistir às cerimónias da Semana Santa e à procissão de Ecce Homo.
Este contraste entre a figura de um Cary Grant minhoto, de chapéu e luvas, o cenário da Sé Primaz de Braga e a figura austera e quaresmal da Tia Benedita (uma Audrey Hepburn que desconhecia a idade), era digno de um quadro da família do desventurado Carlos IV pintado por Goya, e fez história na época. Seja como for, com a solenidade de um ‘chauffeur’ de Hollywood, o Tio Alberto regressou a Braga dois dias depois a fim de devolver a Tia Benedita ao seu casarão de Ponte de Lima, passando primeiro por Vila Praia de Âncora onde, todas as Páscoas, se provava o cabrito ou o arroz de pato cozinhado pela Tia Henriqueta.
Desta vez, porém, não havia Páscoa, não havia lausperene na Sé bracarense, não havia a culinária da Tia Henriqueta e, certamente, os caminhos das serras não eram os desses anos distantes. Tirando ser a eleitora esquerdista da família, Maria Luísa é uma boa condutora e sabe que este passeio de Inverno é uma visita sentimental em busca das primeiras mimosas floridas do Minho, as ‘Acacia dealbata’– um momento em que se observa a primeira luz ao fundo da escuridão de Janeiro. Sem as mimosas, não há Primavera dois meses depois: elas anunciam, nos declives ou alturas do Gerês, nas colinas que rodeiam Monção e Melgaço, nas curvas dos Arcos de Valdevez onde o sol é mais duradouro, a chegada daquelas primeiras tardes mansas e tépidas de Março. Ainda vêm ao longe esses dias, mas a timidez das suas flores amarelas é um vislumbre de harmonia – e a sua promessa é tão feliz como o regresso ao Gerês.
ANTIGA ORTOGRAFIA

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