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António Sousa Homem

As cotovias nos pinhas de Moledo

Não acredito demasiado num Deus que comande o nosso destino.

António Sousa Homem 10 de Maio de 2015 às 00:30

O velho Doutor Homem, meu pai, descria totalmente da política. Como assistira ao estertor da República, ele acreditava que uma horda de servidores ora do Estado, ora de negócios particulares, se tinha mancomunado para transformar a Língua Portuguesa numa espécie de lugar sem honra nem remédio, até chegar ao ponto em que ninguém se entendia. Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, diz que eu não devia ver telejornais porque teme "o efeito nos nervos".

É um exagero, bem vistas as coisas. Eu não deposito grandes esperanças nos telejornais nem nos comentários políticos da televisão; limito-me a verificar como o género humano encontra explicações incoerentes servidas por má gramática.

Em primeiro lugar, os telejornais são longos demais, misturando informações inúteis sobre o que aconteceu no parlamento com atropelamentos de animais domésticos numa vila do Zêzere. Isabelle, a namorada holandesa do meu sobrinho Pedro (uma bióloga marinha nascida na Frísia), entende sofrivelmente o português e não compreende
como um telejornal pode inaugurar-se com uma notícia sobre um despiste de dois automóveis contra as instalações de um aviário de Leiria, excepto se se tratar de um programa humorístico.

Depois dos noventa anos temos a perigosa tendência de achar que já se assistiu a um século de devastação. Não é verdade; falta ainda uma surpresa que está para chegar. Aguardo-a sem cinismo; apenas com uma sensação de perda.


Nestas ocasiões salva-me a placidez da incipiente Primavera de Moledo. Sou um privilegiado. Não que o mereça, porque não acredito demasiado num Deus que comande o nosso destino, à maneira da fé que o velho Doutor Homem, meu pai, depositava nas previsões meteorológicas do Dr. Anthímio de Azevedo. Não fui suficientemente generoso ao longo da vida, sobretudo com desconhecidos. Não fui suficientemente curioso, nem suficientemente amável.

Por vezes, a misantropia do Homem toldou a minha capacidade de apreciar a beleza da vida e a opinião dos outros. Justifico-me com a ideia de que fiz o que fiz para me proteger do mundo, da política, da poesia em verso irregular e dos romances modernos. Cheguei à idade madura – e além dela – sem conhecer nem a disciplina do matrimónio nem a solidão dos desventurados. Aguardo as cotovias nos pinhais de Moledo. É uma ocupação medíocre mas não sei como voltar atrás.
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