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António Sousa Homem

Como um velho fala sobre as mudanças no mundo

As mudanças não fazem a felicidade; frequentemente, as coisas mudam para pior.

António Sousa Homem 4 de Agosto de 2017 às 00:30
Com certa bonomia, a minha família compreendeu que a grande habilidade era estar no lado mais afortunado dos campos de batalha, onde os Homem raramente estiveram; habituámo-nos a estar do lado dos derrotados, o que contribuiu para que ganhássemos juízo bastante.

Quando a tia Benedita se esforçava por recordar a vetusta dignidade dos Homem de antanho – da primeira dinastia à Concessão de Evoramonte –, calhava relembrar os primos que combateram nas companhias de Dragões ao lado do general MacDonnell e sob a bandeira do Senhor Dom Miguel, os antepassados que deixaram o nome e algum sangue pelos valados da Pátria, ou as ideias que podiam defender-nos da imbecilidade do mundo. Todos tinham lido o ‘Eusébio Macário’, o folhetim onde Camilo explicara como o constitucionalismo, a democracia e o ‘liberalismo’ não podiam ser melhores do que os seus intérpretes, que eram maus exemplos de seres humanos. O nosso pessimismo foi, assim, mais alimentado pela comédia mais do que pela tragédia.

A minha sobrinha Maria Luísa tenta explicar-me que o mundo mudou, coisa que acompanho pela leitura dos jornais e pelas conversas que escuto na esplanada da praia neste enclave de Moledo. Argumento que compreender que o mundo mudou não faz ninguém mais feliz porque, frequentemente, as coisas mudam para pior.

Nessas ocasiões relembro a excepção a esse bando de cómicos da família (entre os quais me incluo, com pesar) – o meu avô, administrador de quintas do Douro. Como todos nós, não poderia dar vivas à República e nunca festejou o dr. Salazar. Como os seus antepassados, era discreto; como os seus herdeiros, dedicou-se a proteger a família com o fruto do seu trabalho.

Foi confidente de Guerra Junqueiro, que visitava na sua quinta de Barca d’Alva julgo que para discutir o preço do vinho e da amêndoa, ouvi-lo recitar versos que não apreciava grandemente e contemplarem juntos as águas do rio à hora do crepúsculo. Ali estavam dois velhos arrancados a um filme italiano, um republicano de longas barbas e um miguelista de bigode.

O mundo mudara à sua volta (ainda não havia casamentos entre gente do mesmo sexo nem barrigas de aluguer, nem partido dos animais), mas nenhum deles se sentia mais feliz com isso. Eliminámos injustiças e diminuímos a dor e o sofrimento na doença, o que é uma bênção; mas há mais doidos à solta, contentes por mudar o mundo a todo o custo e transformá-lo num lugar mais perigoso.
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