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António Sousa Homem

Confissões de família e autobiografia

Maria Luísa quis saber, então, porque nunca fui eu corajoso o suficiente para roubar a minha noiva e fugir para Moledo.

António Sousa Homem 24 de Maio de 2015 às 00:30

Por muito que explique à minha sobrinha Maria Luísa que o Tio André Bravo de Sousa Homem (que tinha um dos apelidos remanescentes do ramo transmontano da família, que ainda sobrevive em Redial, nas florestas sobranceiras ao Vidago), tirando a sua paixão por cavalos, era um homem discreto e feliz – ela não acredita totalmente. Tudo isto porque, na passagem do século (há mais de cem anos, portanto), ele cometeu um crime vagamente escondido nos arquivos da família, que foi o de roubar uma noiva à porta da igreja.


A coisa é hedionda, reconheço; mas o espavento não foi muito ruidoso e a Tia Benedita, a matriarca miguelista da família (e minuciosa investigadora da sua genealogia), preferia mudar de conversa sempre que se mencionava o episódio. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha outra ideia do assunto: remetendo-o ao conjunto de raros episódios romanescos das montanhas dos Arcos de Valdevez, ele achava que tudo tinha sido combinado – e que a noiva respirou de alívio quando se viu raptada pelo Tio André, porque sabia que o seu destino era mais grandioso do que ficar sitiada pelo recorte do Gerês e do Soajo. As montanhas fazem bem à saúde, sim, desde que se tenha lido Thomas Mann. Naquela época Thomas Mann ainda não escrevia.


Seja como for, o casal fugiu para o Lugo, em Espanha, onde se casou às escondidas, e regressou a Portugal dois meses depois, instalando-se já do lado de cá das montanhas, nos arredores de Darque, onde a vida prosseguiu com muito menos sobressaltos. O Tio André ainda ocupou um cargo honorífico na administração do concelho – e a Tia Inocência (nome prodigioso) foi uma senhora dedicada à família, de quem só há elogios a recolher (ficou famosa a sua sopa de cerejas, ombreando com o arroz de pato da Tia Henriqueta).

A minha sobrinha Maria Luísa, porém, acha que ela foi vítima de um machismo perigoso e grosseiro agravado pelo facto de o Tio André gostar de cavalos. Expliquei, a contragosto (as histórias de cônjuges não são o meu assunto preferido), que, pelo contrário, o Tio André foi um herói do seu tempo, evitando que a Tia Inocência desfalecesse nos braços de um casamento banal e destinado à infelicidade e às hortas no meio das vinhas. Esta declaração foi-me fatal: Maria Luísa quis saber, então, porque nunca fui eu corajoso o suficiente para roubar a minha noiva e fugir para Moledo. O assunto ainda me ruboriza depois dos noventa.

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