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António Sousa Homem

Elementos de miguelismo e filosofia moral

O velho Doutor Homem acreditava que os portugueses sucumbiam a todas as tentações.

António Sousa Homem 12 de Maio de 2017 às 00:30
Quando chegava a certo ponto - sempre que se falava "do regime" e, por extensão, "da Pátria" -, o velho Doutor Homem, meu pai, encolhia os ombros e dizia que tudo era merecido; referia-se, em sentido lato, aos "portugueses", em cuja existência não acreditava a não ser como uma entidade vagamente mitológica, situada entre a fortaleza de Valença e a Basílica Real de Castro Verde e seus arredores. Compreendia-se o cepticismo: não existiriam "os portugueses" como um todo, mas apenas várias pessoas que viviam dentro das fronteiras definidas pelo Tratado de 1864.

Os Homem ganharam – injustamente – fama de serem um pouco misantropos; segundo a tradição e a maledicência de alguns primos em segundo grau, isso deve-se ao facto de estarem prestes a passar dois séculos sobre "a catástrofe", como a Tia Benedita se referia quer à fuga da família real para o Brasil (de onde ela acreditava que vinha toda a imoralidade conhecida até à época, e desde que São Jerónimo traduziu a Bíblia para o latim), quer à Concessão de Évora-Monte e ao exílio do senhor Dom Miguel. Uma coisa estaria ligada à outra. Para a Tia Benedita, que passou quatro quintos da sua vida em Ponte de Lima velando pela tradição familiar, também "os portugueses" tinham o que mereciam: ela acreditava que "o mal" levava quase sempre a melhor, e que o fim dos tempos se aproximava cada vez mais célere desde que a ‘Jours de France’ publicara um retrato da mini-saia de Mary Quant.

Esta ideia estabelecia uma ponte entre o carácter ultramontano da Tia Benedita e a bonomia tolerante do velho Doutor Homem, meu pai; o causídico acreditava que "os portugueses" (a existirem, evidentemente) sucumbiam a todas as tentações, que gostavam de acreditar em promessas de fácil redenção e que – no fim de contas – festejavam patifes e flibusteiros sempre que os patifes e os flibusteiros os festejavam a eles. Era um encontro de almas.

Pois sempre que "chegava a certo ponto", o velho Doutor Homem, meu pai, gostava de esclarecer que o desembarque dos "bravos do Mindelo" não se deu no Mindelo mas na Praia dos Ladrões, no Pampelido, o que fazia uma certa diferença; e gostava de relembrar a frase de D. Pedro IV, que – à vista da sua impopularidade inicial – foi involuntariamente sublime: "Portugueses, não me obrigueis a libertar-vos pela força!" É por isso que o cinismo também nos tem alimentado com certa vantagem.
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