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António Sousa Homem

Então lá perdemos outra vez o Brasil

Para o Dr. Salazar, o Brasil era o lugar onde ministros e diplomatas se perdiam.

António Sousa Homem 2 de Junho de 2017 às 00:30
Dona Elaine está preocupada com o Brasil. Ela regressou há muito do Rio de Janeiro na condição de viúva remediada e com as suas arrecadas, como uma emigrante que tinha amealhado o suficiente para viver nas encostas de Seixas, logo acima de Caminha, de onde se lança o fogo de artifício em honra de São Bento na segunda semana de Julho.

Porém, a sua condição de minhota não a deixou preguiçar – e desde finais da década de oitenta que tem a seu cargo a administração plenipotenciária deste eremitério de Moledo, onde (felizmente) põe, dispõe e comanda a parte da família que cai sob sua alçada, ou seja, os convivas habituais do almoço de domingo, dos meses de Julho e Agosto e dos fins de semana ao longo do ano.

A isto se soma, ainda, o fascínio que exerce em grande parte das visitas da casa, desde o dr. Paulo (que se aconselha amiúde com Dona Elaine) ao dr. João Pereira Coutinho (em quem noto, por vezes, a tentação de discutir Hayek com a antiga emigrante). Enfim, as pessoas obedecem-lhe – a começar pela minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, que Dona Elaine obriga a tomar o pequeno-almoço antes das onze, ao sábado.

O Brasil, para a nossa família, foi sempre longe demais – como notámos quando o tio Alfredo regressou de lá para se instalar perto de Afife, depois de se desfazer de todos os bens que o Pernambuco lhe proporcionara durante décadas de labor e devassidão tropical. A Tia Benedita nunca apreciou esse sobrinho que suspirava pelo luar do sertão – ela comungava com o dr. Salazar da desconfiança sobre o Brasil, o lugar onde ministros e diplomatas se perdiam. Os "brasileiros" de Camilo nunca tiveram boa fama nem na literatura nem no Minho – a inveja e a maledicência lusitana cercaram-nos, e às suas casas falsamente sumptuosas, compradas a velhas famílias falidas mas barões titulares do "liberalismo".

A mim, o Brasil salvou-me. Recordo aquele instante em que me declarei desprevenido e livre na Copacabana de então. Foram dois meses dedicados à elegância (vestia-se bem no Rio de Janeiro de então), ao teatro (que era bom), às companhias de ocasião, aos correspondentes locais do nosso escritório, e a certo enamoramento pela beleza de uma jovem que me ensinou, sem saber, a apreciar a leveza da vida.

É por isso que Dona Elaine murmura, desgostosa, olhando para a televisão: "Então, lá perdemos outra vez o Brasil." Evito explicar-lhe que aquilo já não é o Brasil. 
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