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António Sousa Homem

Lembrança da eternidade por causa do Verão

“Ao leme da barcaça eu sonhava com a minha idade adulta esquecendo que era o mais velho da família”

António Sousa Homem 13 de Julho de 2015 às 15:40

É uma certeza mais ou menos adquirida, entre gente da família, o facto de eu ter nascido já relativamente velho. Coube ao restante rebanho dos Homem (somos cinco irmãos no total) a feliz tarefa de se comportar de acordo com os padrões aceites em geral: uma juventude irrequieta, uma idade madura apreensiva. A mim calhou fazer figura de romance, como propõe a minha sobrinha Maria Luísa, que frequentemente faz investigações sobre o meu passado, tentando descortinar as sombras de um amor tórrido, de um acontecimento estapafúrdio ou – como se exige a qualquer personagem – de uma perversão escondida com cautela.

Como expliquei já aos meus leitores benevolentes, vivi esse breve período da minha juventude da forma mais anódina que conheço: sem insónias. Atribuo o facto à minha vida distribuída pelo escritório, pelo cumprimento dos deveres profissionais e pelas amizades da época. As minhas irmãs, que sempre me olharam com a curiosidade que se deveria devotar a uma espécie rara, e que nesse papel tentaram depois substituir Dona Ester (minha mãe), acrescentam a falta de preocupações familiares e a ausência de uma mulher que castigasse a leviandade do meu carácter. Em seu entender, uma esposa deveria proporcionar-me um nível adequado de preocupações de modo a economizar no sono e a manter-me acordado quando o corpo me ordenasse que dormisse. Admito que seja assim, mas não quero menosprezar o hábito de beber café de cevada e de manter a rotina de jogar bridge em dias certos da semana, além do gosto razoável pelo tom rubi do vinho do Porto que o meu avô, administrador de quintas do Douro, fornecia às nossas despensas.

Maria Luísa quer mais. Para isso tem a colaboração da Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha; ambas tentam, nos nossos jantares quinzenais (à mesa do Ancoradouro, servidos pelo discreto Alfredo), arrancar-me uma confissão, submetendo-me a um interrogatório que revele uma distracção, um arrojo, um abismo.

O destino de certas pessoas é o de olhar para trás em busca de um passado sem sobressaltos. Recordo um Verão depois da II Guerra, quando eu e os meus irmãos alugámos um barco para descer o Rio Minho até à foz – foi o meu momento Tom Saw-yer. Ao leme da barcaça (na altura eu fumava uns charutos reprováveis), eu sonhava com a minha idade adulta esquecendo que era o mais velho da família. Todos os anos o Verão me recorda como somos eternos durante tão pouco tempo.

António Sousa Homem crónica em certos aspectos
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