Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
7
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

António Sousa Homem

Lições de pedagogia e puericultura geral

Os educadores de hoje diminuíram bastante a aplicação de mercurocromo e sulfamidas.

António Sousa Homem 1 de Dezembro de 2017 às 00:30
Periodicamente, a minha sobrinha Maria Luísa – a eleitora esquerdista da família – descrê da bondade que costuma atribuir ao género humano (é muita generosidade da sua parte) e defende o fuzilamento dos adolescentes; não de todos mas, essencialmente, dos seus.

O velho Doutor Homem, meu pai, resolveu essa parte dos deveres da educação familiar de uma forma mais simples, mostrando a cada um dos seus filhos (éramos cinco, duas raparigas e três rapazes) uma generosa indiferença pela forma como ocupavam o seu tempo desde que se apresentassem a horas à mesa, se agasalhassem no Inverno e não repetissem o ano no liceu ou na universidade.

No restante, Dona Ester, minha mãe, providenciava tratamentos de praia e banhos de sol (ela acreditava muito nos poderes profilácticos do iodo) e uma certa indiferença em matéria de sentimentalismo.

O método mostrou-se muito conveniente. Poupado – pelo celibato – aos mistérios da puericultura e da pedagogia, limitei-me a observar a vida dos meus sobrinhos e, depois, dos sobrinhos-netos, acompanhando ao mesmo tempo as notícias e a preocupação dos jornais com a educação das novas gerações.

Ao contrário do velho Doutor Homem, meu pai, os educadores de hoje preocupam-se com muitas outras coisas, da instrução sexual até ao apoio psicológico em regime de ambulatório permanente, o que diminuiu bastante a aplicação de mercurocromo e sulfamidas (que já são hoje proibidos), mas criou a impressão de que os pais são uma espécie de semideuses domésticos, mas sujeitos a escrutínio democrático.

Chegados a este ponto do processo histórico, a minha sobrinha Maria Luísa acha que "o mundo é assim" (mesmo que, intimamente, não o aprecie) e que, na luta entre os adolescentes e o mundo que os seus pais representam, se deve estar do lado do futuro das novas gerações.

Acontece que as novas gerações, criadas no conforto da educação liberal (como já ocorreu no seu caso), ou se transformam em marxistas atípicos, ou em expositores de tatuagens ambulantes, ou em simpáticas criaturas que não conhecem as frustrações, os perigos e as contrariedades do mundo – e, portanto, se recusam a lidar com elas.

Não julguem os meus benevolentes leitores que sou um Torquemada que quer correr os jovens a látego e disciplina férrea. Pelo contrário: comovem-me; eles são as primeiras vítimas da profilaxia sentimental do nosso tempo. Dona Ester, minha mãe, lançá-los-ia ao mar de Moledo, para que aprendessem a nadar.
Moledo Maria Luísa Doutor Homem Torquemada Dona Ester questões sociais
Ver comentários