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António Sousa Homem

Lições de geografia e astrofísica elementar

O meu avô usava um é de hortelã atrás da orelha.

António Sousa Homem 16 de Agosto de 2015 às 00:30

Setembro marca o início das auroras boreais. O leitor, se estiver a sul das ilhas Faroé e no polígono estratégico de Moledo, bem pode olhar para o céu – em vão. Em Outubro, sim, nos picos das Hébridas, a Alta Escócia, podem ver--se com alguma sorte, mas sempre vindas do Norte (das Faroé, da Islândia, da Noruega e da Gronelândia): uma espécie de arco-íris apresentando-se num céu escuro transformado em salão de baile. A nuvem de cor move-se durante alguns minutos no céu, ganhando e perdendo formas, sobre a tranquilidade dos fiordes ou da estepe – do Alasca até às enseadas de Murmansk (para lá de Murmansk e de Novaya Zemlya, a caminho das ilhas Spitzberg, só há dragões). Aprendi isto pelos livros, como quase tudo na minha vida – a experiência não me condecorou com o sinal da sua sabedoria.


O meu avô, administrador de quintas do Douro, tinha por hábito dizer que cheirava ao fim do verão – porque era o elemento mais forte da época no Vale do Douro: o do mosto, as uvas colhidas nas vindimas de Setembro e Outubro, arrastadas até aos lagares, cantadas pelos poetas de antanho. Neste vale profundíssimo, o do Cachão da Valeira, o do Pinhão, o do Vezúvio (onde vagueia, ao crepúsculo, o fantasma de Dona Antónia Adelaide Ferreira, glória do grande rio e das suas vinhas), ou de Barca d’Alva, não há auroras boreais. Estamos, além disso, em fase grande da lua; diz-se que se fecham as corolas da esteva, da carqueja e do que resta das tílias, altas e de folha clara.


O Barão de Forrester (que morreu afogado no Cachão da Valeira), pintor bissexto, geógrafo autodidacta, exportador de vinhos, em vez de uma camélia costumava pôr um raminho de hortelã na botoeira da casaca. O meu avô, passado o viço dos vasos de manjerico, imitava o Barão e usava um pé de hortelã atrás da orelha, exactamente como os carpinteiros guardavam o lápis aguçado com navalha de Palaçoulo. Sentado no pátio de casa, de onde se via uma antiga gravura da Quinta do Vale Meão, sob uma figueira, ouvia o boletim meteorológico e despedia-se do Verão (as vindimas anunciavam a colheita da amêndoa).

De certa maneira, chorava versos que podiam ter sido escritos pelo poeta Alencar, de ‘Os Maias’. Lembram-se daquele? "Abril chegou, sê minha!" Há outra versão: Agosto despede-se, Setembro chegará, sê brando, ó Outono do coração.
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